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Ensaio sobre verso e prosa (Parte 1)


Artigo para a seção Escrita Criativa, por Carolina Bernardes.



A linguagem literária lida com relações simbólicas, imaginativas, rítmicas, entre outras, que constituem uma multivalência significativa, fugindo sempre da univocidade. A obra literária é uma estrutura, um sistemas de elementos interligados, e a palavra só possui significado pleno quando integrada nessa unidade estrutural.


Todo texto literário se situa (...) num espaço intertextual – espaço de confluência – (de aceitação, de recusa, de transformação) de outros discursos (de teor literário e não literário). Por outras palavras, todo o escritor, além de se situar numa dada tradição lingüística (...), se situa numa determinada tradição retórico-linguística, tecno-literária, temático-literária, a que ele pode aderir, que ele pode transformar ou com a qual pode romper (...). Ao escrever um texto literário, o autor confronta-se sempre, de modo mais ou menos consciente, em maior ou menor grau, com outros textos literários, que ele nega, deforma ou revitaliza. (AGUIAR E SILVA, 1979, p. 34)

O escritor não só confronta-se com outros textos literários como aceita, nega, contesta ou altera valores histórico-culturais, princípios éticos e religiosos, atitudes psicológicas, ideologias, convicções políticas e filosóficas que caracterizam o indivíduo e o grupo no qual está integrado. Assim, um texto literário não se realiza num universo primitivo e original absoluto, mas está vinculado aos textos literários e não-literários do passado e da época em que o próprio escritor está inserido (já tratamos disso em outros artigos), bem como se vincula ao contexto social do qual faz parte, problematizando, revelando e conferindo significado real aos valores desse contexto.

A literatura já não mais detém a característica da plurissignificação, os discursos ditos conceituais angariaram o poder de se expressar da mesma maneira. Tanto a literatura quanto o texto não-literário elaboram seu discurso por meio do signo lingüístico, dos sintagmas, das frases, das sequências, e todos eles vêm carregados de múltiplas dimensões semânticas. O que marca um texto como literário é ele ser um palco propício à recepção de vários discursos e de todo o potencial imaginativo do escritor. A literatura seria, então, a conciliadora das instâncias conceituais com as emoções ou os sentidos. Entre discurso conceitual e retórico, a função da literatura está em estabelecer um vínculo entre razão e emoção.

Trataremos agora das características da prosa e da poesia.

Muitos estudos foram e têm sido dedicados ao exame da prosa e da poesia. Porém, as fronteiras que separam os dois gêneros não puderam ser delimitadas com precisão, tendo em vista a grande associação entre as duas formas de literatura. Assim, a distinção entre prosa e poesia perde a sua nitidez ao constatar-se a presença da prosa em textos classificados como poéticos e a presença da poesia em textos tidos como narrativos. As diferenças entre os gêneros, quando há a necessidade de classificar uma obra, até mesmo por uma utilidade de aplicação, devem-se a repartições variáveis das funções poética e referencial da linguagem. Tais funções podem ser encontradas em maior ou menor grau nas categorias literárias: há em todo romance, por pouco que seja, algo de poesia; todo poema, em alto ou baixo grau, tem algo de narrativa. Os escritores, por sua vez, adotam, transformam ou rejeitam os gêneros literários convencionados, o que confere aos gêneros um caráter de instabilidade e transição. Dessa maneira, surgem as exceções ou os híbridos, quando não são examinados, descritos e reagrupados em novas classificações.

Prosa e poesia servem-se das mesmas palavras, da mesma sintaxe, do mesmo jogo de conotações, mas diferentemente coordenados e estruturados. A distinção se inicia nas associações e ligações feitas e desfeitas no organismo psíquico, diferenciando a maneira de se raciocinar sobre a prosa e a poesia. O que é eficiente para uma pode não ter sentido algum para a outra. A poesia lírica se distingue da prosa por ser a expressão do eu, por meio da linguagem polivalente, enquanto a prosa se identifica por ser a expressão do não-eu, empregando a mesma forma de linguagem.






A prosa ou narrativa é uma relação de acontecimentos relatados ou encadeados, numa relação com o devir temporal. A sucessão de sentimentos ou de palavras apenas afigura na narrativa se vier em forma de acontecimentos: os sentimentos estão presentes, mas na forma de análise ou de caracterização dos personagens; as palavras fazem parte de um discurso ou diálogo, e não ganham estatuto por si mesmas. O narrador, o personagem, o espaço e tempo definidos têm importância predominante nesse gênero, sendo essas representações do real os motores que aceleram ou retardam a ação.

A poesia lírica, ao contrário, não se preocupa com o desenvolvimento de uma ação objetiva, que se expande aos limites do mundo, mas concentra-se no sujeito individual e nas situações e objetivos particulares desse sujeito, como seus juízos, suas alegrias, suas admirações e sensações. O mundo exterior, os seres, a sociedade e os eventos históricos não representam para o eu-lírico uma objetividade enquanto tal. A poesia tem uma função lúdica e atua num mundo próprio criado pelo espírito, “no qual as coisas possuem uma fisionomia inteiramente diferente das da lógica e da casualidade” (HUIZINGA, 1999, p.133). A poesia está em um plano primitivo e originário, ligado ao sonho, ao encantamento e ao êxtase e ao qual pertencem a criança, o selvagem e o visionário. Para expressar o sagrado e emoções de caráter elevado, a poesia é, também, o veículo mais propício.

Octávio Paz, em “Verso e Prosa” expressa as diferenças entre os dois gêneros assinalados:


Enquanto o poema se apresenta como uma ordem fechada, a prosa tende a manifestar-se como uma construção aberta e linear. Valèry comparou a prosa com a marcha e a poesia com a dança. Relato ou discurso, história ou demonstração, a prosa é um desfile, uma verdadeira teoria de idéias ou fatos. A figura geométrica que simboliza a prosa é a linha: reta, sinuosa, espiralada, ziguezagueante, mas sempre para diante e com uma reta precisa. (...) O poema, pelo contrário, apresenta-se como um círculo ou uma esfera: algo que se fecha sobre si mesmo, universo auto-suficiente e no qual o fim é também um princípio que volta, se repete e se recria. E esta constante repetição e recriação não é senão o ritmo, maré que vai e que vem, que cai e se levanta. O caráter artificial da prosa se comprova cada vez que o prosador se abandona ao fluir do idioma. Logo que se volta sobre os seus passos, à maneira do poeta ou do músico, e se deixa seduzir pelas forças de atração e repulsa do idioma, viola as leis do pensamento racional e penetra no âmbito de ecos e correspondências do poema. (PAZ, 1998, p.69)


Ao final dessa citação, Paz acena com a possibilidade de fusão entre prosa e poesia, o que naturalmente aconteceu, por exemplo, em muitos romances modernos e contemporâneos. A essa categoria híbrida, se convencionou chamar de prosa ou narrativa poética. Essa categoria é a narrativa que toma emprestado ao poema seus meios expressivos e seus efeitos, tornando-se um meio de transição entre o romance e o poema. Assim como encontramos poemas com vários recursos da narrativa.

Sobre as categorias híbridas falaremos na segunda parte deste artigo. Aguarde a continuação na próxima postagem (10 de setembro).




Crédito da primeira imagem: Matisse, A Dança (1909)






Bibliografia

AGUIAR E SILVA, V.M. Teoria da Literatura. Coimbra: Almedina, 1979.

BERNARDES, Carolina. Multidiscursividade em Ascese Os Salvadores de Deus de Nikos Kazantzakis (dissertação de mestrado). Araraquara: UNESP, 2004.

HUIZINGA, J. “O Jogo e a Poesia”. In: Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 1999.

PAZ, Octavio. “Verso y Prosa”. In: El Arco y la Lira. México: Fondo de Cultura Económica, 1998.

3 comentários:

  1. Professora Carolina!
    Obrigado por dividir um pouco do seu conhecimento.
    Belíssimo ensaio, muito elucidador. A escrita é mesmo apaixonante!
    "Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens."
    Délires - Arthur Rimbaud

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  2. José Eron,
    Fico muito feliz com sua presença constante em meus artigos. É motivador saber que meus textos ajudam em seu conhecimento e têm sido úteis de alguma maneira! Parabéns pela lembrança de Rimbaud (poeta entre os meus preferidos). E vamos seguindo em frente nessa busca pelo conhecimento e pela descoberta literária. Grande abraço

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  3. Muito bom mesmo. Didaticamente esclarecedor. Parabéns Carolina. Vou esperar a segunda parte; a "categoria híbrida" chamou-me a atenção especialmente. abs

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