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Nosso louco amor



Conto, por José Cláudio (Cacá).

“Palavras são palavras e a gente nem percebe
o que disse sem querer e o que deixou pra depois
Mas o importante é perceber que a nossa vida em comum
 depende só e unicamente de nós dois.”
(da música Um Jeito Estúpido de Amar, cantada por Roberto Carlos).


Gleicineide me diz ouvindo o radio que todas as vezes que vem fazer faxina aqui em casa, sua cabeça fica fervendo com pensamentos. Eu pergunto se é por causa do noticiário cheio de sangue, sensacionalismo e as enfadonhas notícias do mundo da economia e ela me responde que é por causa das músicas românticas da emissora que eu gosto de ouvir.

- É cada lembrança, seu moço, que eu nem te conto!

- Antigos romances, paixão recolhida, Gleicineide?

-Seu moço, se não lhe incomoda eu vou contar. Antes de me mudar para cá, tinha um rapaz na minha cidade chamado Celinho, feio, seu moço, de dar dó. Mas eu era apaixonada por ele de um tal jeito que o senhor nem vai acreditar. Na época eu tinha 17 anos e ele 28. Era o motoqueiro da cidade. Um homem especial de bom. Namorava escondida de meu pai; como já lhe disse, eu tinha muito medo dele, de suas violências com a gente lá em casa. A minha paixão pelo Celinho era além desse negócio de beleza física, seu moço. Ele me tratava como uma princesa, como uma rainha, melhor dizendo. Um dia, seu moço, meu pai flagrou a gente juntos e eu tremi. Mas ele não falou nada até eu voltar pra casa. Ele ficou sabendo que o Celinho era filho de um homem de muitas posses, muita terra, muito gado e começou a fazer um gosto danado pelo namoro. Aí me falou que eu teria que casar de qualquer maneira. Mandou chama-lo lá em casa e falou sem rodeios que fazia muito gosto de um casamento; que éramos pobres mas que ele faria questão de fazer todas as despesas. Ainda usou uma expressão que me envergonhou demais: “nem que seja um arroz com feijão simples, eu quero dar uma festa.”. Foi um apego só, dele com o Celinho. Eu continuei o namoro com um entusiasmo maior ainda, seu moço. Meu sonho era casar com o Celinho. Todas as vezes que eu ouço Se A Casa Cair, do Teodoro e Sampaio até arrepio, seu moço.

- Péra lá, Gleicineide, eu não ouço esses caras, não! São as músicas que eu gosto de ouvir que lhe trazem lembranças ou não?

- É, seu moço, mas quando o senhor não tá aqui eu mudo pras emissoras que tocam. Gosto de outras também, mas essa me faz lembrar ele dançando em volta de mim toda vez que a gente ouvia e me dá uma saudade danada daquele homem. Vou falar um negócio pro senhor: se o Celinho aparecesse aqui agora, eu acho que largava o Juninho na mesma hora. Apesar de já fazer 11 anos que isso aconteceu, eu não esqueci dele até hoje.

- Mas então foi uma paixão mal resolvida?

- Pois é. Minha mãe tinha adoecido de depressão profunda e eu acho que foi por culpa do meu pai que maltratava ela demais. Veio para a capital se tratar e meu pai veio atrás. Só que a minha mãe não contou onde estava ficando nem onde se tratava e nunca mais quis saber de meu pai. Passado um tempo ela voltou à cidade, mandou a gente (eu e meus irmãos) arrumarmos tudo correndo e nos trouxe. Não deu tempo nem de despedir do Celinho. Liguei para ele depois e ele me disse que ia dar um jeito de vir pra cá também. Não sei o que aconteceu mas não veio e eu não o vi nunca mais. Comecei um tempo depois a namorar o Juninho e seus ciúmes não me deixam muito solta por aí. Uma única vez que voltei na minha terra ele foi lá atrás de mim. Acho que é intuição de homem, né seu moço? Porque intuição de mulher não falha de jeito nenhum. O senhor tem intuição?

- Hum, hum! (interessado mais em ouvir do que estender essa parte)

- Eu tenho uma vontade, sabe do quê? Um dia voltar lá, ir a um salão, me produzir toda e chegar perto dele e dizer assim: “mas como você tá feio, hein, Celinho”?

Hoje ele já deve estar chegando nos seus quarenta anos, imagine que bagaço não virou! (interrompendo a divagação):

- Olha aqui nos meus braços, seu moço, eu fico arrepiada só de pensar nesse homem.

- É, Gleicineide, acho que ainda tem um sentimento meio enraizado aí dentro, não é?

- Acho que tem sim, seu moço. Apesar de ele nunca ter me feito nada (nada daquelas coisas, o Sr. sabe, né?) eu arrepio desse jeito, imagina se tivesse feito? Já falei pra minha mãe que eu não vou me casar nunca mais.

- Então é sério mesmo?

- Uai, seu moço já se passaram mais de 10 anos e eu não consigo esquecer dele, como é que eu vou fazer? Me diga o senhor aí que deve de ter mais experiência: como é que eu faço, seu moço?

Desconversar nessas horas é o melhor conselho, mesmo sem sair do assunto. – Olha, Gleicineide, eu também tenho muitas lembranças de música que me remetem para momentos inesquecíveis que já tive na vida. Ah, que saudade quando ouço certas músicas! Elas estão presentes na memória afetiva da gente para sempre.

Gleicineide saiu para a área de serviço cantarolando

“Foge de mim quando eu quero um abraço
Fazer amor, ela não quer nem saber,
Já não agüento essa falta de carinho
Hoje eu quero uma mulher pra me amar
Custe o preço que custar”


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Créditos da imagem: Olhares.com
Rádio antigo, por mnpta

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