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O teatro da vida





Poemas, por Ianê Mello.



Primeito Ato


Têmpora
            nua
           crua
           cruel
                  fria

Tempo
  esquivo
     cativo
           volátil
                   ilimitado

Na têmpora desvanecida
Nua tez de emoções
Crua como estopa
Cruel ao envelhecer
Fria em impressões

No tempo que vaga
Esquivo que escapa
Volátil como o ar
Ilimitado em sua finitude

Seca o ar o suor
da tez fria e nua
No tempo que se faz
cativo em agoras
No ar que escapa
em profundos ais
em noites mal dormidas

Na crueza das horas
um grito atento
no delimitar as linhas
que no rosto se apegam

É chegada a hora
nos minutos sem perdão

Cai o pano

...

finda o ato



Divina Comédia


A divina comédia humana
que um dia recebemos como herança
quando éramos ainda crianças
e nada sabíamos do mundo.
Como uma dádiva divina acolhemos
em nossas mãos pequeninas
(Presente tão encantador)
e por ela fomos levados,
dia após dia,
na inocência de quem crê.
Com o coração puro
nos entregamos aos feitiços
e as armadilhas da vida
interpretando os papéis
que a nós eram destinados.

Ao bem fomos apresentados
pela ternura de nossos pais
(quando esta houvera).
Tornando-nos crédulos no amor
que nos confortava em seu berço.
Nos sentindo protegidos,
sem nada a temer,
fomos crescendo na certeza
de que a bondade existia.

O tempo foi passando
e com ele a certeza
pouco a pouco fraquejando
cedendo lugar à dúvida.

O mal, então , se apresentou.
Súbito, traiçoeiro e ameaçador.
Revelando o outro lado
da bondade que conhecíamos.
Com ele, a insegurança se instalou
e a paz que então reinava,
pouco a pouco, desmoronou.

A angústia se fez visível
no temor ao inimigo
e em cada gesto contido
que o medo nos imprimia.
A lucidez tomou conta
da ilusão que antes existia
Do amor como sentimento único
que a natureza exprimia.

A dureza dessa revelação
se fez sentir na alma
e com ela a pureza
escorreu por entre os dedos.
A maturidade tomou a vez
da inocência perdida
e assim nos tornamos
cada vez mais humanos,
com todas as virtudes e vícios
que um humano pode ter.

Viver, então, tornou-se
uma eterna e incansável luta
entre o bem e o mal.
Contrários que co-habitam
em nosso ser cheio de contradições.
O conflito que essa dualidade gera
nos faz desejar o perfeito equilíbrio
entre esses dois contrários-
- nossa " área de conforto",
que nutre e revigora
o amor que nos deu a vida.



O resgate do humano

Não te escondas na sombra
Abras as frestas da janela
Deixes a luz penetrar
e iluminar teu corpo
como uma carícia
um afago amante

Deixa-te por ela ser tomado
Revela-te por inteiro e completo
Aprendas a te amar
se queres ser amado

Pra que esconder-te
na névoa do passado
Despir-te de ti mesmo
para o anonimato
Tornar-te um sem nome,
um qualquer
Uma sombra do que eras
Um nada

Coragem, homem, coragem!

Mostres teu rosto à luz
Abras teus olhos cansados
Vivas tua vida presente
Rasgues tuas antigas fotos
de um tempo que passou
e com elas tuas lembranças
que te impedem de seguir adiante

Caminhes para a vida e não para a morte
Sejas homem, sejas humano, sejas forte!



A vida em atos


Máscaras a encobrir nossa face
Criadas pelo medo
que se instala no ser
obscurecido pela ausência
do verdadeiro eu

Emolduram o rosto
e em seu contínuo uso
nele tomam forma
De tal maneira
se incorporam e se amoldam
que torna-se difícil
vislumbrar a face original

No exercício constante do disfarce
a consciência de si mesmo
se perde pouco a pouco

No palco da vida
Personagens assumem seu papel
No diário teatro de máscaras



Teatro de máscaras


Na penumbra do silêncio que resvala
entre lágrimas e sorrisos contidos
sentimentos obscurecidos pelo medo
ganham tamanho e forma
e assumem sua real proporção
Na solidão da alma que abriga
fantasmas de um passado opressor
onde habitam estranhos seres fictícios
criados pela própria imaginação
e outros ainda reais e próprios
de uma mente inquieta e confusa
A tarefa árdua e difícil do encontro
com o eu mais profundo e renegado
nos porões escuros da mente
nos obriga a convivência inexata
com o ser que tornamos nossa imagem
A vida segue seu curso e nela seguimos
como um espectro do que somos
Nos apresentamos num teatro de máscaras
sem cumprirmos nosso principal e real papel:
desvendar quem realmente somos
e mostrar nosso próprio rosto.


*

Créditos de imagens: Pintura de Renne Magritte

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