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Deserto no deserto



Conto, por Valentina Silva Ferreira

Dez horas.

Não tenho tempo para conjugar roupa. Fico com esta: discreta, branca, limpa. Faço as malas. Pouca coisa porque tudo o que tenho lembra-me esta casa, esta existência, ele: ele que já foi tudo o que sou; que já habitou dentro de mim, fora de mim, no oásis da minha boca, na pedra castanha dos meus olhos, na areia quente do meu corpo. Eu era deserto - mas deserto com vida, com movimento, com cactos que me picavam mas que me faziam viver e constatar que estava desperta, presente; hoje (ainda) sou deserto - mas de nada; apenas um pó que voa, um grão que se esconde na aragem.

Dez horas e cinco minutos.

Tenho pressa: de fugir, de esquecer, de começar de novo. Quero voltar a encher-me de sentidos, quero respirar felicidade, quero acordar e perceber que o dia me espera. Hoje, sou eu quem espera o dia, o dia que nunca chega porque ele o levou na sola dos pés e no calor do coração.

Dez horas e sete minutos.

- Joaninha, passa-me o perfume.

A empregada agarra no frasco e deposita-o no interior da minha sacola. Um perfume que ele não conheceu e, por isso, não traz recordações dolorosas. Fecho o saco, ajeito o cabelo e sento-me na cama - um quarto vazio. Um eu vazio que quer ser atafulhado de qualquer coisa. Encaro o saco, a cama, o armário, o espelho. Eu, ali, transformada numa carne sem alma. Feia, feia como nunca fui.

Dez horas e dez minutos.

- Está na hora, Joaninha. Vou sair de vez.

A senhora encosta o corpo à soleira da porta e admira-me. Noto uma certa ansiedade. Será tristeza? Tristeza por me ver ir embora? Haja alguém! Inspiro profundamente e os meus olhos rolam pela parede. Encontro o Senhor na Cruz: braços abertos, dor nas feridas rasgadas, paz nos olhos puros. Até Ele, na dor, no retalhar da carne, no precipício da morte, transborda sentimento pelos olhos. E eu, eu no espelho, sentada, sem nada, sem luz, sem sombras, sem vagões de sentimentos. Eu - o deserto do deserto.

- Tenho tantas saudades, tantas saudades.

Sussurro e tento engolir o ar às golfadas. São dez horas, ainda. O tempo não passou. Nunca passa. No relógio do meu quarto serão sempre dez horas. E nunca partirei, nem deixarei esta casa, esta vida, este eu que não sou eu sem ele: ele que foi embora sem um adeus. Choro. Afinal tenho algo dentro de mim - a dor, a dor, a dor.

- Joaninha, vou dormir.

Desfaço-me da mala e deito-me. Amanhã tento outra vez.

- Dorme bem, pequena - diz-me a senhora. - Daqui a pouco o médico vem ver como está.

Dez horas. Amanhã tento outra vez. Sorrio. Afinal tenho algo dentro de mim: dor, dor, dor. Alzheimer.


*

Créditos da imagem: Site olharees - fotografia online
horas gastas pelo tempo..., por André Trindade Porto.

Um comentário:

  1. muito bom o sentimento caracterizado que esta jovem amiga escritora proporciona em todaa sua escrita, um belo conto ;)

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