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Ensaio sobre verso e prosa (Parte 2)




Artigo para a seção Escrita Criativa, por Carolina Bernardes.


Um texto escrito em forma de narrativa poética conserva a ficção de um romance: personagens que interagem em um ou vários espaços. E, ao mesmo tempo, há um sistema de ecos, de retomadas, de contrastes, produzindo frases musicais e imagéticas. O personagem central na narrativa poética está em relação direta com um outro ser, que ele procura, remetendo a uma busca de si mesmo pela ausência do outro. O espaço deixa de ser definido e está sempre alhures, além, porque é o de uma viagem orientada e simbólica, percorrendo um itinerário. Esse movimento é aumentado pelo recurso da imagem, uma vez que cada frase passa de um nível a outro. A metáfora se associa à lógica da frase que é, a um só tempo, a da emoção e a do arcabouço histórico. Há a fusão do eu com o não-eu, os acontecimentos do mundo externo se voltam para a reflexão e para a introspecção. O tempo acontece em repetição, mas ocorre em diferença porque momentos e frases idênticos são colocados em um outro lugar do texto e carregados de tudo o que precede. Assim, como não é possível dizer que o tempo na narrativa poética é circular e espiralado, dizemos que o desenvolvimento do ritmo se faz sob a forma de espiral. O compromisso da narrativa poética com a natureza e com o intemporal a aproxima dos mitos.

A narrativa poética deixa perguntas como estas: “onde se passa a ação? Quando? Por quanto tempo? Quem são e como são as personagens?” Toda essa indeterminação é natural no universo da poesia e torna ambígua a narrativa. A narrativa poética é a história de uma experiência e de uma revelação. Assim, há o questionamento constante por parte do personagem ou da instância narrativa alçada à categoria de personagem, bem como uma busca interior incessante, o que leva a reflexões quanto à criação humana; a narração vai ocorrendo sobre um desdobramento, o herói recria um mundo ideal para si mesmo, um mundo que se reproduz como a vida em sonhos, como conseqüência da viagem ao centro do ser.

O narrador poético transforma a narrativa em instrumento da poesia, pois ele próprio revela uma visão de poeta e não de romancista. Assim, a narrativa poética instaura-se como a fusão entre o conceito de acontecimento e a alusão contínua à textura do imaginário.

Há que se considerar, ainda, o poema em prosa, que segue a mesma fusão entre narratividade e poesia. Aqui, está em causa a poesia, expressa não em verso, mas em prosa, empregando a linha contínua que alcança ambas as margens do papel. A diferença está em que, na narrativa poética, a prosa não perde sua marca própria fundada no enredo, enquanto o poema em prosa lança mão das características da prosa sem abandonar as características essenciais da poesia, porém, dispensando o verso. Como poema, pressupõe uma unidade orgânica autônoma, mas ao contrário do conto, da crônica, do romance e da novela, não se propõe nenhum fim fora de seu universo fechado, nem narrativo, nem demonstrativo; ao utilizar os procedimentos narrativos e descritivos, busca transcendê-los para submetê-los unicamente em favor da poesia. A diferença principal que se pode estabelecer entre as duas formas de fusão entre poesia e prosa está na ausência de enredo, de episódio no poema em prosa. Fundado na união de contrários – prosa e poesia, liberdade e rigor, anarquia destruidora e arte organizadora – o autor do poema em prosa busca a ordem e o equilíbrio, ou a desorganização do universo, fazendo surgir um outro universo, a recriação do mundo.

Naturalmente, há traços que se repetem em determinados textos, favorecendo a possibilidade de reuni-los em formas discursivas e em gêneros. Os textos carregam traços identificáveis que permitem o reconhecimento de sua participação em um conjunto. Porém, há traços que transbordam e rompem os limites que separam os gêneros e discursos, sinalizando que “todo texto participa de um ou mais gêneros sem pertencer inteiramente a nenhum”. (NASCIMENTO, 1999, p. 290)

Para sistematizar os gêneros há a instituição de uma lógica absoluta que os diferencia, mas a escolha de um gênero ou de vários gêneros para a composição de uma obra, por parte do autor, é inteiramente livre. Dentro dessa liberdade, o que se há de buscar, por parte do leitor, é se o autor realizou seu plano nos limites da coerência proposta por ele mesmo; o gênero fica estabelecido nesse novo universo pela lógica da relação mútua entre os elementos constitutivos escolhidos pelo autor, bastando que os elementos presentes nesse organismo estruturado estejam inteiramente encadeados e coerentes com os propósitos do autor. Assim, romper com os gêneros estabelecidos não pressupõe a criação de obras sem forma, sem lei e sem rigor, mas a constituição de uma lei própria da obra em si.

Não há gênero ou discurso em seu estado puro; a linha demarcatória que os separa não se verifica na prática. É assim, portanto, que temos dificuldade em classificar muitos dos textos lidos e é essa visão que devemos levar para a escrita criativa, aquela que estamos todos continuamente aprendendo a fazer.



Referência:

NASCIMENTO, Evando. "Escrita e Gramatologia". In: Derrida e a Literatura. Niterói: Eduff, 1999.

2 comentários:

  1. Professora Carolina, é com grande expectativa que sempre espero ansioso pelas suas postagens. Mais um ótimo artigo. Eu, particularmente, penso que a dificuldade na demarcação do gênero de um texto, mais o aproxima de uma qualidade superior.
    Tenha uma ótima semana!

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  2. José Eron, muito me alegra saber que aguarda a publicação dos meus artigos! Muito bom ter condições de fazer um trabalho de continuidade e levar alguma contribuição aos leitores!Gostei muito da sua observação sobre a relação entre qualidade/dificuldade de classificação dos gêneros! Na verdade, a questão dos gêneros é polêmica e um campo minado nos estudos literários. Nem todo texto precisa de classificação; nem todo texto bom se mostra inclassificável; e os textos que se colocam entre fronteiras de discursos e gêneros se constituem exatamente pelo impasse. O importante para o trabalho autoral é descobrir a amplitude de possibilidades e reconhecer que a literatura se faz pela construção, pela linguagem, forma que passa evidentemente pela questão dos gêneros!
    Grande abraço!

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