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Yelena, por Inês Barreto.


Fui conduzida pelas ruas de Veneza até o antigo palácio do doge. Há anos não existe mais um ocupando seus corredores. Mas aquela moça, alta e frágil, vestida como uma jovem dama do século XV, esvoaçando seus cabelos negros por antigas vielas, me levou até lá mesmo assim. Ela me mostrou o que a cidade esconde de seus muitos turistas.

Sua roupa antiguada era um vestido branco com colete azul claro e sapatilhas. Os cabelos. soltos por baixo de uma tiara, eram cobertos por um fino véu, da cor do colete. Nas orelhas, delicados brincos prateados. Seu rosto, sem maquiagem, era muito jovem e rosado. Parecia ter acabado de sair de um excitante passeio de gôndola, ou de uma brincadeira com os muitos pombos da cidade. Me lembrava a figura romântica da donzela que esperava seu cavaleiro retornar da Cruzada no oriente.

Aquele rosto angelical me chamou delicadamente pelo nome e fez um sinal para que eu a seguisse, segurando a saia com a outra mão. Sem esperar minha resposta, se virou e saiu correndo. Atordoada, a segui, apressada. O vento frio do inverno vêneto me atingiu em cheio quando comecei a correr atrás dela. Meu rosto e minhas mãos doeram.

Depois de passados alguns minutos, quando nos embrenhamos por uma viela e por uma porta lateral do grande edifício, percebi que seria impossível algum veneziano saber quem sou. Nova na cidade, morando há pouco tempo, sem saber o dialeto local e falando um italiano que ainda tinha muito a melhorar, eu seria facilmente confundida com uma visitante de fim de semana. Mas ela sabia que eu não era uma veneziana, assim como sabia que eu era mais do que alguém que simplesmente estava de passagem.

Ela devia ter o estranho dom de ler pensamentos, porque enquanto entrávamos em um longo corredor forrado de tapetes vermelhos e quadros antigos, me falou:

- Nós, que nascemos aqui, nos conhecemos. - Seu italiano era claro, mas tinha um leve sotaque - Pelos rostos, pelos cheiros, pelo jeito de andar. É fácil saber que você não é uma de nós.

Não disse isso com maldade, nem com rancor. Sorriu de um jeito simpático e sincero, enquanto afastava antigas tapeçarias e me mostrava como atravessar corredores secretos que a maioria das pessoas nunca veriam.

Entramos por mais uma porta, que deu acesso à uma área de paredes cinzentas e sem a mínima graça. Quem olha a bela fachada do palácio não imagina que, por dentro, possa haver algo feio lá dentro. Pareciam os aposentos dos empregados, muito mais simples e frios do que o local por onde havíamos passado, ou do que a parte luxuosa visitada pelo público. Entre as goteiras do teto e o chão de pedra dura, depois de ter passado por tapeçarias e castiçais de ouro, consegui vislumbrar o que era a cidade há 500 anos, durante o esplendor de seu comércio. Hoje toda Veneza respira água e passado, mas ali, em especial, ele se torna uma névoa densa e melancólica, que pesa sobre os ombros.

- É aqui. – ela me disse, em um determinado ponto, abrindo uma porta de madeira. – Estes são os aposentos de Yelena. Entre que ela está esperando.

Eu o fiz, hesitante. Quem era Yelena? O que queria comigo? Por que eu tinha feito toda aquela jornada, seguindo ordens de uma completa desconhecida?

A sala tinha a mesma pedra cinza dos corredores por onde eu havia passado. Era uma cozinha improvisada, com pia estranhamente moderna, armário de madeira escura e mesa de madeira, com bancos compridos no lugar de cadeiras. Em vez de fogão, a comida era feita na lareira, e um longo braço de ferro sustentava a panela sobre o fogo.

Uma mulher mexia no caldeirão. Era menor e mais corpulenta do que minha guia. Ela aparentava ter mais de 60 anos e não era bonita, mas tinha um porte imponente e até mesmo autoritário. Seu cabelo, tão negro quanto da outra, estava desgrenhado e cheio de fios brancos. Trajava um vestido longo e simples, sem mangas, de algodão rústico, e sem nenhum adorno.

Diferentemente da mocinha que me trouxe ali, que sorria o tempo todo, Yelena não alterava sua expressão. Me olhou séria e pediu, também em italiano, que eu me sentasse em um dos bancos da mesa, enquanto terminava de mexer a sopa. Enxugando as mãos em um pano, que pendurou no ombro, se ajeitou no outro banco de frente para mim.

Como por mágica, eu percebi o que era Yelena. Não um doge, mas quem, de certa forma, os sustentou por todos aqueles séculos. A verdadeira dona daquele palácio, agora confinada em um cômodo minúsculo e espartano. Velha e vivendo de uma sombra do que foi no passado, assim como sua cidade, Yelena exalava o espírito vivo de Veneza pelos poros.

Ela se inclinou sobre a mesa, cruzou as mãos e olhou fundo em meus olhos. Eles eram muito negros, com um leve brilho que beirava o sobrenatural.

- Você tem a minha permissão para ficar na cidade. Só permanecem aqueles que aqui nasceram, ou os que eu aprovo pessoalmente. – Ela fez uma pausa e seu olhar ficou mais brando, mas sem diminuir de intensidade - Você não é mais uma estrangeira em Veneza.

Não sorri por fora, mas minha alma se iluminou. Eu, perdida no mundo, que vaguei por tantos lugares até decidir me fixar onde talvez fosse menos intrusa, achei um local que poderia chamar de lar. Veneza, que recebeu tantos mercadores, artesãos e outros vagantes, estava agora se abrindo e me permitindo desvendar seus mistérios.

Ela fez um movimento com a cabeça à guisa de despedida e não falou mais nada. Eu assenti e murmurei um tímido “grazie” enquanto me levantei.

Uma outra mulher, que tinha por volta de uns 30 anos e se parecia muito com as outras duas, tocou levemente em meu ombro e sorriu, esticando o braço em direção à porta. Entendi que ela me guiava para a saída.

Sua roupa era parecida com a da mocinha que me levou ali, mas seu colete era marrom, seu cabelo negro estava preso e sua tiara não tinha véu. Percebi que as três eram aparentadas, pois a semelhança física entre elas era muito forte. Ela me pareceu mais aberta do que Yelena, e andava mais devagar do que a apressada moça de azul. Algo nela inspirava à intimidade, à conversas sob o luar e a um longo gole de grappa. Quando percebi, estava fazendo as perguntas que não conseguia tirar da mente:

- Quem são vocês? - perguntei, em italiano.

Ela me respondeu na mesma língua, mas tinha o mesmo sotaque da outra.

- Somos as guardiãs de Veneza. Na verdade, Yelena é mais do que uma guardiã. E nós somos suas irmãs e tomamos conta dela.

- Há quanto tempo vocês vivem aqui?

- Eu vim na época em que Veneza era o coração do mundo. A Mais Nova chegou um pouco depois disso. Mas não sabemos quando Yelena nasceu, ou se veio de fora, ou se é daqui. Ela é muito mais velha e muito calada. Achamos que ela veio para este mundo junto com a própria cidade.

Andávamos pelos mesmos corredores de pedra da ida. Minhas botas de couro marrom estalavam no chão, mas os passos leves da mulher não faziam barulho. Percebi que ela estava descalça.

- Mas... o que vocês fazem aqui, no palácio? Por que vivem aqui?

- Nós zelamos pela vida da cidade. Eu cuido da Veneza que trabalha. Estou envelhecendo rápido, porque nossos trabalhadores mudaram muito em todos esses anos, mas acho que a morte ainda está longe de vir me encontrar. A Mais Nova cuida da Veneza que encanta, e é sempre bela porque sempre haverá uma alma de marujo ou de viajante sorrindo ao avistar a cidade no porto. Isso a alimenta.

Ela se calou. Depois de um tempo, perguntei:

- E Yelena?

- Yelena cuida da Alma. - ela me respondeu depois de uma pausa, de forma pensativa e distante - Se os canais dessa cidade ainda correm, se os palácios ainda estão de pé e se o Carnaval ainda é celebrado, é porque Yelena ainda está viva. Mas não sabemos por quanto tempo.

Quieta novamente, me guiou pelo corredor das tapeçarias vermelhas. Pensativa, empurrou a porta por onde a Mais Nova havia me trazido para dentro.

Se Yelena morrer, pensei, Veneza morre. E eu novamente vou perder meu lar.

- Não se preocupe com o fim de nossa cidade agora. - Sorriu, tentando me tranquilizar. Assim como sua irmã mais nova, deve ter lido meus pensamentos - Provavelmente você já terá partido deste mundo quando a última pedra da Piazza di San Marco ruir e Yelena morrer. E se isso acontecer, sempre poderemos ir para a Roma, pois ela é Eterna.

Ela me deixou sair. Sorriu e fechou a porta logo depois, enquanto me olhava ternamente. Segui por vielas que agora eram conhecidas e rapidamente me encontrei em frente ao palácio, no meio da horda de turistas alucinados por fotos e encantados com a arquitetura, loucos pela cidade, mesmo com o frio úmido que exalava dos canais.

Mas mesmo sendo confundida com aqueles “stranieri”, não segui com eles. Eu não era mais uma estrangeira: a Alma de Veneza havia me aceitado como sua filha.


Biografia:

Inês Barreto é jornalista e em breve será historiadora. Apesar de ambos os ofícios exigirem o fato, tem uma queda pela ficção fantástica desde que se conhece por gente.

Twitter: @inesbarreto

Blog: Escrito em Ametista


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Espectros Cap 1 - A parede Mofa, por Vagner Silva.



Na rua a escuridão era intensa, o manto da noite fria só era rompido pela fraca iluminação dos velhos postes de ferro já corroídos pela ferrugem. Hora ou outra falhavam e eram vencidos pelo breu, dando assim abrigo as criaturas da noite, não mais intimidadas pela claridade.

Estava Amadeus atormentado, olhos vidrados na parede mofa que se destacava das demais de seu velho apartamento, pensava ele o que poderia ser aquela imagem, parecia querer formar algo, um desenho ia sendo contornado lentamente dia a pós dia.

Aquilo o atormentava, ele achava estranho algo aparentemente insignificante o prender tanto a atenção e fazer tão mau, a figura inanimada não se definia.

Inquieto deitado em sua cama que já não era arrumada há dias, como o resto de sua casa, lençóis sujos, restos de comida se percebia por todos os lados.

Aquela parede mofa o tirava o sono que já não era dos melhores, pois sofria de insônia e passava dias sem dormir, e por isso pensava ele ser o motivo de suas perturbações e pesadelos horríveis quando raras vezes pegava no sono vencido seu organismo já debilitado pelo cansaço.

“Corria Amadeus como nunca o fizera antes, algo o perseguia ele olhava para traz em meio à multidão nas ruas cheias de pessoas que iam e viam boates bares cabarés, luzes de neon de todas as cores. Por mais que quisesse não conseguia despistar a estranha criatura que o perseguia, criatura essa inumana passava por entre as pessoas como se elas ali não tivessem matéria, vinha a meio metro do chão.

Finalmente o alcançou, ele olhou para face de seu perseguidor e o que viu o paralisou instantaneamente. O ser flutuava a sua frente, vestes negros parecendo trapos um grande manto quase impercebidos se não fosse às luzes de neon dos estabelecimentos e os faróis dos automóveis que passavam a todo instante. “Sentiu sugada, sua alma esvairindo de seu corpo como se fosse areia por entre os dedos até perder a consciência e acordar”.
Seu corpo tremulo como em convulsão fora se aquietando lentamente, vestis encharcadas como se tivera a pouco saído de uma tormenta no olho do furacão.

O gelo de usa pele só era quebrado pela febre de quase 40 que já coagulava suas células e o fazia desmaiar.

Todos os dias da última semana fora assim, esgotado fisicamente e psicologicamente. Ao sair de seu apartamento para a rotina diária, trabalhar sair com os amigos se divertir, quanto mais se distanciava de seu apartamento sentia aos poucos suas energias retornarem para seu corpo e alma.

Ele decidira acabar com aquela marca em sua parede, fizera planos, comentou com os amigos do trabalho - vou comprar tinta depois do expediente e de hoje não passa aquela parede mofa: - dizia ele.

O dia passou rapidamente como todos os outros para ele, só que esse fora diferente ao cair da noite ao retornar para o seu apartamento andara os últimos quarteirões, as luzes dos velhos postes produziam a única luminosidade das ruas, pelo horário devido à compra das tintas para seu objetivo já era tarde. Amadeus sentia que algo vindo do breu da noite o olhava o tempo todo. Aquilo o incomodou aquelas luzes tão fracas falhavam constantemente, o fazendo lembrar seus piores pesadelos.

Ele correu os últimos quarteirões, abriu rapidamente sua porta e a trancou com a mesma velocidade. Ao retornar para o seu lar pensava ele estar seguro e protegido, olhou para parede mofada esqueceu tudo de seus desejos e planos, sentou ao pé da cama ainda bagunçada com baratas e outros insetos que se alimentavam dos restos já podres de comida, e novamente fora sugado para dentro da estranha figura da parede mofa.

Por horas ficou ali, e novamente caiu no sono que já não parecia tão raro para quem antes sofria de insônia. – finalmente ele dormiu novamente. – falou uma voz roca e parecendo ser de alguém ou alguma coisa naquele quarto.

Algo agora se percebia soltar daquela imagem do mofo da parede, antes sem forma, agora definida e nítida. Aquilo começou a sair da velha parede e foi direto em direção a Amadeus caído em sua cama.
- Vou me alimentar. – falou a estranha criatura sugadora de energias vitais, emoções e sentimentos.

A criatura pairava a poucos centímetros do corpo, sua face parecia a de um animal faminto o pouco que podia se notar era rosto com pele ressecada olhos avermelhados e dentes pontiagudos o pouco cabelo que se notava por de baixo do manto negro eram finos e esbranquiçados, suas mãos dedos compridos esqueléticos com unhas pontiagudas como de um animal predador.

Encostou sua face na de Amadeus podia perceber que algo saia do corpo, uma nevoa com tom azulado saia direto para a boca da criatura, ele estava ali se alimentando e absorvendo a alma da pobre vítima, mais qual seria o propósito, somente se alimentar ou teria algo mais algum plano com essa pessoa sugada diariamente por esse espectro das sombras.

Biografia
Perfil no facebook
Vagner Silva , nasceu em São Paulo, Capital, em 1978. Formado em Ciencias Biologica, trabalha, atualmente, como Funcionario publico na cidade de Poá. Possui varios poemas e contos expostos no site recanto das letras, um livro publicado no site.

Livro: Weigon Estrander E a Sociedade da Espada Negra
Fan Page do livro.

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Créditos da imagem: Site olharees - fotografia online

Primeira imagem: O Mercador de Veneza, por Filipa Larangeira .

Segunda Imagem: ..., por Adriane.

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