Novidades

A Magoada Felicidade



Crônica, por Marcelo Sousa.


Sempre que essa tal felicidade bate à minha porta, fico como uma criança que estivesse sozinha em casa e fosse surpreendida por algum estranho visitante, que subitamente batesse com mão de pedra ou de aço, e fizesse todo mísero cotidiano transformar-se em novidade. Eis o dilema: abrir ou não abrir a porta?

A gente se acostuma a viver em um mundo previsível, onde a única certeza é a perda. Nada é completo, perfeito. E perfeição, aqui, nada tem a ver com beleza ou poder. Perfeito é aquilo que é completo. Veja só a nossa vida: é totalmente imperfeita. É incompleta. Temos alegrias momentâneas, uma alegria diáfana, efêmera, escrita a ferro e fogo nos cânones, delimitada por todas as religiões: a vida tem alegrias, porque seu Criador assim deseja, mas o sofrer é humano, necessário, indispensável, insofismável. Somente no pós-vida é que existe a possibilidade da redenção, que é disfrutar do sentimento de eternidade, a existência enfim completa e por isso perfeita, e por consequência, a felicidade.

Então quer dizer que ninguém é feliz nessa vida? Sim, a felicidade, muitas vezes, se apresenta em nossa vida, mais de uma vez a cada pessoa, mas nós não acreditamos nela. Não conseguimos entender o que ela pretente. Recebemos a felicidade como uma visita muito suspeita: ninguém pode ser realmente feliz, plenamente, para sempre! Se vemos alguém feliz, ou suspeitamos que está fingindo, ou cremos que está obtendo sua felicidade às custas da tristeza de outro, ou que, em última instância, não é a felicidade verdadeira, visto que essa felicidade demanda um contentamento sem medida e sem motivo, ou sem motivo aparente ou explícito, visto que tudo é tão perfeito que fica difícil definir qual é a fonte daquela felicidade.

Chega até ser deselegante, ofensivo, dizer que é feliz, andar sorrindo por aí, dizendo que a vida é boa, dizendo que está tudo bem! Gente que vive assim é tida como boba ou como mal-intensionada, gente que finge o impossível só para nos deixar 'pra baixo', pra mostrar que está obtendo mais vantagens que nós, que está sendo favorecida por alguma entidade suprema que só distribui benesses a uma pequena parcela da humanidade.

Estava me sentindo tão pleno ultimamente, tão feliz, que não entendi o motivo, apesar de suspeitar de vários. Poderia achar que é o trabalho, o amor, as finanças, a política... poderia ser simplesmente por ter achado uma moeda no bolso de um paletó, ou ter recebido um sorriso de um estranho na rua, ou ter conseguido comprar aquele carro, aquele tênis, o último gadget da moda, uma gravata bonita... É claro que a vida possui as suas mazelas, os seus problemas, os pequenos descontentamentos, as lágrimas que furtivamente irrompem quando vemos uma cena triste no noticiário ou na tela do cinema... mas essas dores, essas lágrimas, estavam, por assim dizer, no "script". É esperado certo tipo de empatia e simpatia, para o riso e para o choro. Mas a felicidade sobrepuja a tudo isso, e no fim do dia o sujeito feliz sente-se realizado, completo, ainda que suspeite que haja algo de errado.

O fato é que nossa felicidade é uma senhora acostumada a não ser correspondida por qualquer pretendente. Ela nos sorri, flerta conosco, e nós fazemos pouco caso. Ficamos com medo, e, humanos e bobos como somos, aceitamos a felicidade como algo que não pudesse durar, e por isso ansiamos tolamente pela volta ao 'mundo normal' sem toda aquela euforia, aquela felicidade, aqueles sorrisos e aquela alegria.

Como eu disse, estava me sentindo feliz com tudo o que estava vivendo ultimamente, sem ligar para os pequenos problemas do dia a dia. Mas, de repente, lembrei da minha condição humana, lembrei de como me contavam que a felicidade não existia, que era apenas uma palavra usada para designar o inatingível, mas lembrei, sobretudo, de como a filosofia e a ciência pouco contribuem para o entendimento da felicidade, que, muito magoada, não quer mais papo com cientistas, filósofos e, cada dia mais, com os poetas!

A Felicidade, magoada, tem evitado constantemente o nosso convívio. Culpa nossa!

Ao perceber que a minha felicidade já estava me olhando desconfiada, querendo ir embora, observando meu comportamento estranho, decidi chamá-la para uma conversa, dizer que não me importava de onde vinha ou o que fazia aqui. Decidi não interpelar mais a quem me batesse na porta com um sorriso no rosto e uma promessa de perfeição. Simplesmente abriria portas e janelas, deixaria entrar quem quisesse, e deixaria a porta aberta para que a brisa de cada dia e cada noite viesse arejar os cômodos dessa vida, sem que eu chegasse a perguntar quem sopra esses ventos na minha face, simplesmente aceitando seu cheiro de "bom dia" e de "boa noite" como quem aceita um sonho bom, e embarca em suas aventuras sem nem perceber que já está navegando em águas profundas.

Ser feliz é exatamente isso, um exercício consciente para perder a consciência. Perder-se com minúcia, com toda a técnica e experiência daqueles que não tem a mínima idéia do que estão fazendo! Como disse o velho bardo: "Navegar é preciso, viver não é preciso!"


*
Créditos da imagem: Site olharees - fotografia online
Que rosas fugitivas foste ali!, por Jorge Freitas Soares.

Um comentário:

  1. Todos os teus textos possuem um toque lírico, muito bom.
    Acompanho sempre as atualizaçoes do site e teus textos para mim são um dos melhores, parabéns.

    ResponderExcluir