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A morada da sétima felicidade



Conto, por Gil Rosza.

A Prestes a fazer 60 anos, decidiu fazer o longo trajeto sozinho. Sabia que isso era um velho clichê afundado até o pescoço em Castañeda, mesmo assim, gostava de pensar que de alguma forma, aquela jornada espartana o ajudaria se despir um pouco da crença no dinheiro como única fonte de segurança.

Surpreendentemente, conseguiu vencer os trechos mais duros da peregrinação, conheceu pessoas que jamais pensou que pudesse um dia dividir uma tigela de sopa de batatas e pão embolorado, ouviu histórias inacreditáveis, chorou sozinho numa noite fria, bebeu água que não tinha o nome Evian escrito no rótulo, teve bolhas nas solas dos pés, soube o que era passar um dia inteiro com o corpo sujo e pela primeira vez na vida dormiu ao relento. Ali, naquele lugar remoto, sentia algo bom que não conseguia exatamente como descrever, mas que o supria profundamente.

Depois de semanas conectado ao que já considerava divino, resolveu ligar-se novamente às coisas da Terra colocando o Iphone para recarregar numa casa modesta onde pernoitou.


Foi na manhã seguinte, na estrada a poucos quilômetros do fim da caminhada, quando os Pirineus já não representavam mais barreira alguma para conexões com o mundo materialista, que o aparelho no bolso puído da bermuda vibrou insistentemente. O sócio em pânico despejou-lhe no ouvido uma lista interminável com as piores notícias possíveis sobre tudo o que ele ainda não sabia. A queda no índice Down Jones amedrontando investidores, as flutuações nas Bolsas da Ásia, o volume da perda em números! Ele também não sabia que aquela forte dor no peito irradiando pelo braço, não era cansaço e que não adiantaria passar a bandana molhada na testa, nem tomar toda água do cantil. Recostado sobre a mochila, à sombra duma grande árvore, ele ainda não sabia que em alguns segundos, aquela maravilhosa vista duma paisagem rural no sul da França, seria a última coisa que veria na vida.



Foto: Corbis

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