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O Sorriso do Vô Vicente


Poemas, por Marcelo Sousa.

O Sorriso do Vô Vicente


Vô Vicente morreu num domingo
sentado na cadeira de balanço
olhando brincar ao longe na campina
suas netinhas, belíssimas meninas.

Vô Vicente morreu dormindo
dizem até que estava sonhando.
Colocaram-lhe o terno branco
como manda a tradição.
A algibeira, a bíblia velha e o facão
foram juntos com o corpo no caixão.

Vô Vicente morreu sonhando
olhando de olhos fechados
aquelas terras beijadas de orvalho
e aqueles campos abençoados
por anos do mais duro trabalho.

Vô Vicente morreu num domingo
ereto como um coronel na cadeira de balanço
e com mão firme pra não deixar cair a xícara de café
porque era homem cristão, sério e forte
e não se deixaria envergonhar pelos truques da morte.

Vô Vicente morreu dormindo.
Vestiram-lhe o terno branco
como era de costume naquelas terras
vestir o morto com roupa de ir á missa
e pendurar-lhe no peito medalhinhas de santos
e medalhões de guerra.

Vô Vicente morreu segurando
a caneca de café quentinho e amargo.
Os homens da casa o banharam e vestiram
como era devido ao seu cargo.
Rasparam-lhe a barba centenária
para melhor apresentar a figura mortuária.

Vô Vicente morreu num domingo
e a família grande veio da capital
já engolindo soluços e lágrimas de sal.
Vinham carpindo o morto sem nem tê-lo visto
e já pensando em bater seus bens em minuciosa revista.

Mas ao ver o velho ali deitado
o povo todo se calou consternado.
Depois de banhado, barbeado e arrumado
puderam ver que com a cara limpa
sob as saudações de tiros e sinos
Vô Vicente estava era sorrindo
e tinha o sorriso bonito de um menino.

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