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Conto, por Gil Rosza.


Mesmo com o quarto no escuro, percebi quando ela se agachou e chegou o rosto bem perto do meu travesseiro. Assim que teve a certeza de ter atrapalhado o meu sono, acendeu o abajur e sentou-se na beirada da minha cama. Sem ter o que fazer a respeito disso, temporariamente me dei por vencido e recostei-me na cabeceira para ouvi-la reclamar das coisas que ela mesma havia falado no conto Nº 16. Ao terminar, ficou me olhando, como se esperasse alguma justificativa.

Sei que não precisava dizer nada, bastaria mandá-la embora e tentar dormir novamente, mas ela viria noite após noite e para acabar de vez com esse ciclo, fui bastante direto quando disse que não sou responsável pelas coisas que meus personagens falam e sequer me dou ao trabalho de julgá-los por isso. Acho até que fui meio cruel afirmando que não me interesso pelas escolhas que fazem, nem me importo com o que acontece com eles.

Ela não era a única que periodicamente tomava de assalto o meu quarto, já houve outros, geralmente quando um desânimo temporário faz com que alguma história fique incompleta por algum tempo. Eles surgem do nada, altas horas da noite ou de madrugada e quase sempre começam a discutir furiosamente comigo. A observação sem qualquer intromissão é uma condição que me impus ao decidir relatar a vida deles. Quando falo “meus personagens” é apenas por uma questão de semântica, pois na verdade eles não são minhas propriedades. Não os vejo como meu alterego, eles não existem por minha causa, nem demonstram ser o que são para me agradar. Nenhum deles é movido pelo que sinto, penso ou acredito. Não os controlo, apenas voyeurizo os segredos deles e registro aquilo que eles mesmos desejam que eu mostre aos leitores.

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Ilustração: Michael Marsicano

Um comentário:

  1. Eu parto do princípio que somos todos personagens. Então eles são livres também depois de assentados pela pena em algum papel. Muito bom! Abraços. Paz e bem.

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