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Falar de amor


Crônica, por Mariana Collares

Num dia muito, muito distante,
num mundo muito longe,
era uma vez...



Por quanto tempo eu ficaria sem falar de amor?

Na verdade, eu tenho sido a testemunha mais fiel e presente do desamor.

Eu o vi na quase totalidade dos rostos que cruzaram por mim, nas antigas amigas do colégio, nos colegas da faculdade, nos parentes distantes e próximos, na primeira rejeição daquela menina que passou correndo por mim numa tarde. Eu o vi na face de cada pessoa que andou na rua, hoje pela manhã.

O amor? Este eu tenho visto nos cartões de noivado, nos livros de fábulas, nas novelas da TV e nos filmes, todos os filmes que transitam pelo nosso imaginário.

Já o desamor perambula pela realidade do todo-dia, pelo rosto amargo daquela velha mulher, nas linhas de expressão de cada ser vivido, e que se despede a cada dia de um sonho que se vai, de um sonho que finda e se enterra.

Hoje eu chorei, mais uma vez, por causa do desamor. Duas lágrimas a mais no meu rio de prantos. Hoje constatei mais uma vez que a vida é solitária e pequena, veloz e absolutamente rigorosa em querer-nos só para ela.

Hoje eu tive saudades daquele amor de juventude, que sempre está para chegar, depois da próxima esquina, na festa da adolescência, no toque de um corpo no outro enquanto a música embala.

Hoje eu tive treze anos e estive longo tempo dançando no escuro com um menino muito jovem como eu, e como eu muito inocente. E então eu chorei de novo a minha primeira grande perda, minha primeira e dolorosa recusa. E então eu solucei novamente toda uma noite, até que adormeci, ao lado de minha avó, na casa de praia. E desde ali minha primeira ruga se formou.

Hoje eu senti falta de um arfar inconstante. Hoje eu tive pena daquele amor partido, que se foi para não voltar mais, que queria, mas não pôde vir, e que teve que deixar, apesar de tudo.

Hoje eu senti uma dor tão grande que todo o meu rosto murchou e o que restava de um sorriso desvaneceu.

O amor tem estado longe. O desamor... esse é constante.

Hoje as fadas não tiveram qualquer chance contra os lobos. E os príncipes - todos eles – adormeceram.


***

Texto extraído do livro Devaneios Literários,
Crônicas, de Mariana Collares, Ed. Bookess, 2010.

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Créditos da imagem: Site olharees - fotografia online
Esperança/Desilusão/Tristeza, por http://olhares.uol.com.br/DeboraRocha.

4 comentários:

  1. Maravilhoso!!!!

    Hoje senti falta daquele amor que chegou de mansinho, caminhando entre letras num sorriso contagiante. Hoje caminhei entre a saudade de tanto amor que em um punhado de desamor ultrapassou qualquer sentir.

    Hoje, o que eram asas, saltou dos olhos numa mútua sentimentalidade do existir..

    Lindo demais...

    Beijos

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  2. Obrigada, Giovana! Seja sempre bem-vinda!

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