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Memórias pontiagudas




Conto, por Gil Rosza.


Passava já da meia-noite quando bateu a descompensada. Foi relativamente rápida, mas havia nela um led aceso, uma incômoda memória ativada. Quis dar um nome menos formal àquilo, sem torná-la intima demais ou até mesmo de estimação. Primeiro tentei “sofrimento”, mas não era tão enorme assim. Experimentei em seguida “falta de paz” e senti que isso não a definia com honestidade, pois ainda que não seja muito, há aqui dentro uma dose racionada de paz como parte do suprimento para emergências. Imaginei que “dor” seria uma boa palavra para resolver de vez o problema, mas esta também não coube, pois se houve dor um dia, certamente já havia passado. Por fim, desisti depois de chegar à conclusão que não encontraria uma palavra para descrever o breve mal estar sentido. Optei por me render ao silêncio, especificamente nesse caso, uma absoluta ausência de qualquer reverberação de pensamento, o que me possibilitou a partir daquele momento adormecer e chegar na manhã seguinte, sem nenhum resíduo do que me acontecera algumas horas antes.

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Foto: Corbis

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