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O escritor e o leitor: interação necessária?



Artigo para a seção Escrita Criativa, por Carolina Bernardes.


Falar de Escrita Criativa não é pensar tão-somente no trabalho autoral, isso porque o processo criativo que tornará concreta a idéia abstrata não começa na composição do texto, e sim na leitura. No artigo de hoje, quero refletir sobre o ato de ler como a necessidade mais básica para a formação do escritor.

Em meu primeiro artigo desta seção – EscritaCriativa: Inspiração e Transpiração – afirmei o seguinte: “Se a leitura de autores preferidos pode constituir e formar o horizonte de expectativas e a bagagem do indivíduo, levando-o a compor seu próprio estilo como autor, o texto produzido por esse mesmo autor estabelece um diálogo com as leituras precedentes e inaugura nova comunicação com o leitor futuro.” Por esta afirmação, fica evidente que a leitura é a base essencial da criação literária.

De maneira mais específica, como a leitura pode constituir o autor e seu estilo literário? Antes de almejar a produção de textos com estilo individual e assumir o ofício de escritor, é preciso fundar-se como indivíduo pensante; e é na leitura constante e intensa que se pode construir e desenvolver um eu autônomo. Essa autonomia é apenas uma conseqüência da libertação das maneiras convencionais de se pensar a vida. Um indivíduo que se exime ou recusa a leitura está mais propenso a acatar convenções e a não perceber que muitas delas estão desgastadas, envelhecidas pelo tempo, ou que favorecem interesses injustos. A literatura proporciona ao leitor a análise das relações subjetivas que englobam as crenças, as emoções, a imaginação e a ação, o que faz com que ela represente um saber insubstituível sobre a natureza humana.

São infinitas interconexões que o leitor pode descobrir neste tão simples ato de abrir um livro (de papel ou virtual). Se a leitura não pode transformar o mundo, como já se acreditou em tempos mais românticos, ela seguramente torna o indivíduo mais sensível e sábio; em uma palavra: melhor! Neste sentido, a literatura pode ser entendida como um instrumento que permite o leitor descobrir o que, talvez sem o livro, não tivesse visto em si mesmo. E ao possibilitar o conhecimento de si, a leitura abre as comportas para o discernimento da diversidade de valores, culturas e visões.

Cientes e conscientes da necessidade de ler, como uma das formas de constituição do olhar que nos faz entender e avaliar o mundo de fora e o de dentro, é válido refletir sobre algumas questões de interpretação. O processo de leitura começa pelo próprio texto; é a ele que devemos fazer nossas perguntas iniciais: o que este texto me diz e o que eu tenho a dizer sobre a sua constituição? O que me dizem as palavras, o seu encadeamento, a estrutura textual? Após essa análise de escavação, que cola os olhos do leitor na imanência do texto, deve-se passar a outra etapa de questões: qual era/é a tradição literária da qual o autor participava/participa? Qual era/é a situação histórica e social à qual o texto se refere? Que expectativas dos leitores da época pode o texto ter satisfeito ou não? E, assim, que significado o texto passa a ter depois das leituras?

O texto é a realização formal da linguagem transformada em literatura; o contexto é o conjunto das fluências e influências que se condensam na realização textual: momento histórico e social, discursos circulantes – filosofia, política, religião, ciência – leituras efetuadas e, em certa medida (comedida), a vivência do autor. E há ainda que se considerar a tensão entre a verdade do leitor e a que o texto pretende evocar. Quanto mais possibilidades de interpretação e de tensões o texto proporciona, maior sua qualidade literária. As múltiplas atribuições de sentido indicam a polissemia do texto e deixam entrever a necessária função do leitor, única instância literária capaz de fazer um texto perdurar e se imortalizar.

O escritor literário tem consciência da importância do leitor. Talvez seja por esta razão que temos nos apropriado das diversas tecnologias para garantir a presença do leitor. As obras sempre dependeram da leitura; o autor sempre precisou da aprovação do leitor para exercer seu ofício (se não há leitores, melhor abandonar a prática). É assim que o cânone foi se formando ao longo da história literária. Um conjunto de “autoridades” críticas estabeleceu o que deve ser lido, as obras que devem permanecer como imortais, o que relega ao esquecimento muitos e muitos autores.

Temos hoje a nosso favor as ferramentas de interação, a possibilidade de chegar ao leitor e falar com ele, conquistar sua simpatia, não só pelo texto em si, mas pelo que excede as margens textuais – o contato próximo e externo, o tête-à-tête que transforma o autor em indivíduo e o leitor (que deveria ser virtual) em uma figura real. Por um lado, essa realidade nos dá certa autonomia, fazendo-nos exercer outro ofício – o de propagandista e publicitário. Mas, por outro, assumir a função de se auto-promover afasta o autor da necessária separação entre texto literário e biografia. O que deve interessar na leitura é a qualidade e os valores do texto, os sentidos que o leitor nele encontra, o diálogo que a escritura estabelece com o contexto e a sua intrínseca intertextualidade. Se o autor precisa justificar sua obra, escancará-la aos olhos alheios e “vender” uma imagem de sua importância para o mundo, qual é a qualidade real de sua literatura?

Não precisamos de uma resposta pronta à questão; o momento histórico está em processo, estamos a caminho de uma nova constituição do fazer literário. E, enfim, se o texto está sempre em relação com o contexto, talvez as coisas estejam fluindo como devem, já que vivemos a era da interação.

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