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Síndromes



Poemas, por Wellington Souza




Síndrome de Noé¹ na Arca.

O leve efeito etílico
começa a deixá-lo mais apaixonado
mesmo sem ter a personificação
para o seu amor.

O gole
à trinta e oito graus Celsius
lhe refresca a garganta...
Vive novamente momentos
como que escrevendo um conto:
traça um desfecho
apaga
enche o copo novamente
enquanto imagina outro.

Brinca de Deus
montando seu próprio palco
com personagens que só existem em retratos.

Ao final
deseja outras ações em dias perdidos,
porque o realizado
agora
lhe parece o mais triste dos desfeichos...

Sempre soube estar designado a isso,
queria, somente, ter vivido mais...
algo mais.



Síndrome de Buda

O capitão, num cais
vazio de si e de outros
salgado
insalubre.
– até o seu mundo onírico é solitário.

Seus homens
aos cabarés e ao rum:
nesta rara noite liberta
libertam.

Após se alimentar de alguma
volta ao único solo que lhe é firme.

Dentro da cabine
de janelas úmidas de sereno
chora por não ter alegria nem tristeza
orgulho ou desapontamento
vitória nem derrota.
Chora por não ser
não ter
e não estar
dentro de alguém.



Síndrome de Pierrot

E o que sou eu,
senão
um ice-berg
fantasiado de ilha-tropical?



*

¹ Essa síndrome, como as demais que dão títulos aos poemas, são ficcionais.  Embora exista, na literatura médica, uma doença chamada Síndrome de Nóe. Variação da acumulação compulsiva, o doente acometido por ela abriga, muitas vezes sem condições básicas, um grande número de animais.

***

Créditos da imagem: Olhares.com
O Grito, por Marcelo J Costa

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