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Somos sóis




Conto, por Ianê Mello.


Te beijo a boca sôfrega de paixão. Sorvo sua língua de hortelã. Bebo sua saliva até a última gota. Cálice de vinho tinto, doce e suave. Você está em mim como fogo em brasa, que arde e não queima. Seu cheiro a penetrar em minhas narinas, almiscarado. Seus olhos semafóricos me dizem siga e eu me embebo em sua seiva. Seus cabelos de azeviche cheirando a pêssego nos quais pouso minha cabeça e aspiro o perfume. Na curva entre pescoço e ombro me entrego menina. Corpo contra corpo, côncavo e convexo, encaixados como peças de um quebra-cabeça. Não, não se perca de mim por entre a multidão aflita. Não me deixe perder-me de você. Nossas mãos são elos de uma corrente poderosa. Almas interligadas. Vejo através de seus olhos escuros. Me enxergo. Você me vê em mim. Banalizar o amor é fácil para quem não ama. Tratores passarão para derrubar nossos sonhos. A vida nos desvia dos caminhos certos. Tantas placas, tantas sinalizações, tantos caminhos. E por quantos já passei. E quantos julguei ter amado. Quantos amores mastiguei com minha boca ávida extraindo deles todo o sumo para depois cuspí-los ao chão como um chiclete que perdeu o sabor. O engano de se ter quem se deseja e a tristeza quando se vê que não se tem ou não se quer mais. Mas você...ah, você! Você é para mim um encaixe perfeito. Me olha e vê em mim o que sou quando estou contigo. Não desvia o olhar. Coragem. É preciso coragem para a entrega. Não, não quero que seja mais um cigarro que fumo até o filtro e depois amasso no isqueiro já lotado. São tantos amores perdidos. Mas como preservar esse sentimento nesse mundo louco, em constante surto. Nesse caos urbano, nessa infinita pobreza, entre corpos pelo chão, lixo, esgotos, poluição, maldade, solidão humana. Mas somos nós, somos nós, sós. Mas somos outros, somos outros quando estamos entre eles, entre todos. Somos nós, a sós, dois sóis. Mas lá fora é escuro, a negra fumaça que esconde os vultos sem direção, sem rumo, os pobres de espírito, os pobres de amor, os pobres...Pobre de quem nunca amou. A inveja do amor que não se teve é veneno. Os olhares sugam esse amor que é nosso, invejosos, desejosos de destruí-lo, de fazê-lo em pedaços como são suas despedaçadas vidas. Rondam pelas ruas, pelos becos e avenidas, zumbis de almas, perdidos nos descaminhos. Sugadores de energia, vampiros. Querem de nós a vida pois não sabem o que fazer, aonde ir, perdidos que estão no mundo dos humanos. Somos tudo e somos nada. Destinos a cumprir sem saber porque. O que nos puxa para baixo e o que nos eleva, nessa alternância, nessa inconstância de altos e baixos sem fim. Quando você se vai, metade de mim vai contigo. Fica só a outra metade a te procurar, tateando no escuro. Nessa escuridão me perco entre pesadelos assombrosos e personagens antigos. Vidas que passaram e bem não me recordo. O que sou, aonde estou? Esse corpo é meu corpo? Falta-me o espelho de seus olhos para que eu me veja. Falta o aconchego de seus braços para que eu me encontre. Faltamos nós. Nós juntos, sós, somos sóis.

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Créditos da imagem: Site olharees - fotografia online
O Beijo, por Vítor Silva.

2 comentários:

  1. Mais explícito, impossível!
    "Sóis" no Benfazeja, é capaz!
    Um abraço, Ianê
    da Lúcia

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  2. Somente uma mulher muito apaixonada e que sabe viver a vida em todas as suas nuances de prazeres e de dores que ela proporciona para saber tecer com perfeição tamanha sabedoria,sensibilidade, sensualidade e ousadia a beleza desse verdaeiro poema em prosa. Parabéns minha querida. Bjs!!!

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