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Canto Aos Fodidos




Poema, por Marcelo Souza.

Estou bêbado de promessas vãs
por que até hoje nenhuma Eva mostrou-me a maçã
tampouco houve Adão com atitude canalha ou bela
que me oferecesse sua carne, quiçá uma costela!

Estou bêbado de axés e de salamaleques
porque aos meus pés todos os deuses são meninos, são moleques
que jogam bola de gude no tapete estrelado do infinito
enquanto eu envelheço sem saber se fico mais feio ou mais bonito.
Estou bêbado da baba cósmica que escorre da boca dos crentes
que me despejam pelos ouvidos os seus lânguidos gemidos
como se todo culto fosse uma celebração às bacantes!

Estou bêbado do leite cáustico das pias madres
e porque estou bêbado posso chorar meu canto desvalido
que não serve à deus nenhum, porque meu canto não encherá os odres
dos altares que esperam igualmente de inocentes e bandidos
o seu santo ouro, sua santa prata, sem deixar para trás os seus bons cobres!

Estou bêbado, e canto, e não me causa espanto
se quem me ouve agora, finge não me ver, e vira a cara
e bebe seu copo de cólera como se sorvesse coisa rara
a você eu dedico meus bêbados versos doloridos
e gozo sabendo que meu poema te fode pelos ouvidos!


*
Imagem: autor desconhecido.

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