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Desconhecida



Conto, por Valentina Silva Ferreira.


Marcelo memorizava a orla daquele rosto esculpido em branco. As pálpebras repousavam serenamente sobre as duas amêndoas de chocolate que eram os seus olhos. Na tranquilidade calada do sono, o nariz descia, aquilino, pela cara, terminando numa boca pintada de rosa escuro. As feições de miúda gastaram-se com o tempo. Ana já não queria histórias de embalar nem Marcelo se prontificava a apagar a luz. A idade comera as facilidades de diálogo, as conversas por olhares, os passeios de mão dada, os rebuçados oferecidos à chegada, as aventuras sobre os ombros. A idade construíra um muro entre aquelas duas pessoas. Marcelo enxugou as lágrimas dos olhos. Tinha pena. Mas o que mais lhe incomodava era não sentir um buraco no coração como qualquer pai sentiria. Minha filha, quando foi que nos perdemos?

Rafael engolia uma sensação de alívio. Longe, descobria o cheiro dos cabelos que se prendiam ao cimo da cabeça; recordava o sabor a cigarro, chiclete e vinho tinto da sua boca. Mas era tudo tão distante que, rapidamente, se perdiam nas esquinas da lembrança. Sentiu o nojo encurralar-lhe as veias, como se estar diante daquela visão quebrasse qualquer coisa dentro de si. A vergonha consumia-o: tantas vezes desejou tê-la assim, tantas vezes rezou para que ela pagasse por todo o sofrimento que lhe causara e, agora, vê-la deitada, pálida, vestindo um branco que não combinava com a sua vida suja, gelava-lhe o sangue.Oh Ana, poderíamos ter sido tão felizes.

David, recolhido a um canto, desenhava os contornos de Ana com os olhos. Visualiza-la nua era simples, tantas foram as vezes que a tivera na cama, pedindo, implorando, gemendo: por sexo e droga. E ele dava o que ela quisesse. Simplesmente para poder roubar-lhe um pouco mais do corpo e da alma que ela, infantilmente, dizia já não ter. Agora, se pensasse bem, veria quão certa ela estivera de todas as vezes que o alertou: David, eu sou corpo, apenas corpo. Tudo o que terás de mim será apenas corpo. Podes fazer o que quiseres com ele. No fundo, porque era um tolo apaixonado, acreditava que algum dia chegaria ao seu coração e acariciaria a sua alma magoada. Merda, Ana, nem o teu nome completo eu sei.

Daniel era o que dava mais nas vistas. Suplicando entre lágrimas e ranho, o homem escondia-se por detrás de um lenço de papel. De vez em quando, voavam uns resmungos. Por pouco tempo calou-se, engolindo o choro e aproximando-se dela. Sorriu ao vê-la bonita no seu vestido claro e inocente. Os cabelos, que ele tantas vezes cuidara, encaracolavam-se de forma elegante ao cimo. A maquilhagem estava perfeita. Os sapatos era Louis Vuitton. Sua grande maluca, até aqui estás ma-ra-vi-lho-sa!

O menino analisava a cena com curiosidade. Era a primeira vez que ia a um funeral. Não conhecia a mulher mas havia nela um íman: estava vidrado nela. De um jeito que só as crianças conseguem, sorria-lhe embora soubesse que não receberia outro igual de volta. Gostava dela mesmo nunca a tendo visto antes. Gostava dela pela beleza da pele, pela delicadeza dos dedos embrulhados em anéis, pela forma quase angelical como ela repousava. Gostava dela por partilharem a mesma cor de cabelo, o mesmo sinal no pescoço, o mesmo tamanho das orelhas. Gostava dela, apenas. Queria que fosses minha mãe.

- É aquele o filho que ela abandonou - disse uma velha, baixinho.

- Ah vadia - sussurrou outra. - Põem os filhos no mundo para depois abandoná-los.

- Pois é, Conceição. E já viste o ex-marido dela? Um pedaço de homem - sibilou uma terceira.

O velório terminaria em poucos minutos. Ana, desconhecida e desgraçada, seria enterrada e abandonada ao esquecimento.

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Créditos da imagem: Site olharees - fotografia online
Uma rosa Branca..., por Reinaldo Alves.

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