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Escolhas equivocadas





Crônica, por Giovana Damaceno.


Na hora em que ouvi, não pude conter o riso. Nem era o momento apropriado para uma risada, mas confesso que não deu. Estava no estudo semanal da Doutrina Espírita, na casa que frequento, quando o dirigente, discorrendo sobre a diferença entre desejo e vontade, soltou a pergunta: “Quantas escolhas equivocadas não fazemos ao longo da vida?”. O assunto é sério, mas a gente se equivoca tanto no dia a dia, que acabei rindo da situação.

Pense, só por um instante. Quantas foram as escolhas equivocadas que fez hoje?

Preferiu deixar o guarda-chuva em casa e choveu. Não acreditou na previsão do tempo, se encasacou e fez o maior calor. Sabia que não faria bem comer aquela feijoada, mas não resistiu às pressões do seu ser primitivo. Poderia ter descido de escada rolante, mas optou pelo elevador, roubando o espaço de quem realmente precisa. Bateu no seu filho, quando sabia que poderia resolver com uma conversa. Passou pelo sinal vermelho e viu pelo retrovisor o guarda municipal anotando sua placa. Tudo isso, ou parte disso, a gente faz num dia. E durante toda uma vida? Vícios, despedidas, carreira, onde morar, casamentos, compras, vendas, palavras ditas e não ditas, viagens realizadas e não realizadas, alimentação errada, mágoas guardadas, pensamento vadio. Tudo é opção. É querer ou não querer. E tem preço.

Foi por me lembrar de todas estas possibilidades – a de um único dia e de uma vida inteira – é que acabei rindo. Deus do céu, em fração de segundo passou pela minha cabeça tanta bobagem que já fiz, quando poderia ter optado por não fazê-las. E nem sempre as escolhas são feitas sem pensar. Em muitas delas tive tempo para remoer e preferi me equivocar. Claro que me arrepender ou ter remorsos só me atrapalharia ainda mais, por isso creio ser melhor chamar tais deslizes de experiências, não de erros ou falhas (tento ser delicada comigo, né?). Mas a expressão utilizada pelo dirigente do centro foi perfeita: escolhas equivocadas.

Só depois de certa idade é que os olhos estão abertos e a cabeça receptiva à reflexão (pra quem busca, claro). E então se percebe que entre muitas das escolhas feitas por anos, há as que não se sabe que foram um equívoco; faz-se a opção, segue-se em frente e lá adiante está uma grande besteira anotada no currículo (e tem gente que não se dá conta nunca). E é claro que em muitos casos o sujeito tem certeza da escolha pelo caminho mais tortuoso e mesmo assim bate o pé (ô!). Leva-se tombo, tapa na cara, chute no traseiro e com aquela cara de tonto a gente toca a vida e pensa que está tudo muito bem.

Tudo isso é uma divagação danada sobre algo muito subjetivo. Aliás, às vezes penso que seria melhor não ter lido e estudado tanto, pois ser alienada me exigiria menos reflexão, análise, necessidade de avaliação do meu próprio pensar. Há momentos em que gostaria de não ter que elaborar, formular; simplesmente passar. Porém não há como fugir. Bom é saber que não estou sozinha nesta escalada. Recentemente Arnaldo Bloch disse que descobriu, surpreso, após anos de terapia, que há diferença entre desejo e vontade. Provavelmente também deve estar refletindo sobre suas escolhas equivocadas. Todas as temos. Vale agora o exercício de tentar reduzi-las. Enfim, mais uma liçãozinha de vida básica.


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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Esquerda++, por Isabel Cruz.

2 comentários:

  1. Mas vale um gosto do que um desgosto. Que bom que a gente vez em quando se equivoca. A gente aprende mais depressa.
    Calino.

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  2. Gostei muito da postagem. Bela reflexão. Será o percentual de scolhas corretas em oposição às escolhas equivocadas que nos faz mais ou menos felizes, ou ter escolha já é uma felicidade? Sim, porque muita gente simplesmente não tem escolha... Putz, de fato uma pequena reflexão pode dar uma bela dissertação. Pode ser uma boa escolha, ou não!

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