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Não chore...


Crônica, por Mariana Collares

Após ler Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu.


Não, menina, não adianta chorar. Ter pena de si mesma não vai resolver a situação. A verdade com a qual você não quer lidar, a verdade que você não quer ver, é a única constatação possível: você não tem sorte no amor. Não sorte no sentido de má sorte, mas qualquer sorte. Sorte, sortilégio, não importa. O que importa é que a coisa não acontece. Você se doa, eu sei, e talvez o problema seja justamente este. Amor não requer tanto esforço. Amor não requer tanta paciência. Um pouco, o tanto para a sobrevivência própria do amor, sim, precisa, mas tanto? Desse jeito todo, assim, absurdo? Quando você se olhou no espelho pela última vez? Não do jeito de todo-dia, mas daquele jeito de quem ausculta a própria aparência, sem procurar sinais da idade, não é isso, mas buscando a verdadeira face oculta? Você já notou aquela tristeza no olhar aumentada? Não aquela que todos falam que dá ao semblante um quê de elegância, mas aquela que diz mais com uma melancolia inata, ou adquirida com os anos de sofrimento e tantas e tantas perdas. Você já fez as contas de quantas pessoas já passaram? Você já enfrentou, positivamente, a própria insignificância? Não pra se sentir oprimida por ela, mas para dizer pra si mesma: “eu sei que não posso tudo, azar”. Então não chore, menina, porque não adianta. Não perca seu tempo e sono tentando compreender o incompreensível. Tentando explicar o inexplicável. Tentando antever o impossível. No fim, no final dos finalmentes, o que importa é que você se cansou e não fez nada com isto. O seu cansaço tem anos e foi tão longe quanto o eremita das montanhas ao sul do fim do mundo. Não chore. Na verdade, não faça nada. Deixe a brisa envolver seu corpo quente, no fim de tarde, ou o vento da manhã desarrumar os seus cabelos – aqueles que você perdeu horas penteando- e não tente discutir com o sol. Ele vai lhe atingir. Vai iluminar. Vai invadir as janelas, as cortinas todas, vai remexer o pó dos móveis, vai inebriar as plantas da sala, vai embrutecer a terra. Fique imóvel e deixe o tempo esvoaçar a eternidade. Ela é mesmo muito transitória. Como você, menina, tão transitória e chorona. No final, você é uma chorona.



Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
NO MEU CANTO CHORO, por Paulo Madeira.

4 comentários:

  1. Gostaria de saber se posso reproduzir essa crônica, com os devidos créditos, no meu blog.

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  2. Olá Dea, pode sim. Mas, por favor, além dos créditos, coloque o link de meu blog, pode ser?

    Agradecida! :)

    Mariana

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  3. Claro, com créditos e link do blog
    http://semacaso.blogspot.com/2011/11/das-palavras-que-nos-tocam.html
    ;)

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