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Pão e armas




Conto, por Gil Rosza.

Ao se aproximar do hedonismo, quase sempre se começa achar o secular culto à carência e ao sofrimento meio sem sentido. Existe há tempos uma supervalorização do estado de vítima que se baseia na nossa formação cristã ocidental. Ela é diferente do masoquismo clássico, que tem na dor um elemento erótico que se beneficia de um agente sádico para gerar sua satisfação. Já o apiedar monoteísta age como cabresto, é um mecanismo de conter rebeliões contra um sistema que visa privilegiar aqueles tomam e isso nem sempre é feito pela força, pois a persuasão também é um jeito de tomar.

tanto no monoteísmo ocidental quanto no oriental, a condição de agnus dei(vítima sacrificial) é celebrada publicamente como desejável e imagina-se que tal destino por si só, já satisfaça a divindade que o exige. Há nesse pensamento, um nítido induzimento à autopiedade, uma negação culposa dos próprios desejos. O corpo se torna um dejeto e o espírito o verdadeiro ser. Nietzsche foi demonizado quando criticou este tipo de submissão. O controverso termo “super-homem”, que segundo alguns versados, é uma tradução infeliz para a palavra übermensch, mostra que a questão ali não era desafiar os deuses, era rejeitar a fragilidade humana como a única condição possível para quem não é um deus. Sendo assim, talvez houvesse uma escolha melhor que se contentar com o martírio, restando somente sofrer, lamentar a própria sorte, apegar-se ao medo paralisante da solidão, da angustia de não se ter alguém para amar e sanar a eterna carência ou esperando que uma força externa solucione por nós, os nossos problemas por meios mágicos em troca da nossa obediência e devoção. Curiosamente, a natureza que é muito mais antiga que todas as divindades, desde sempre, tem administrado sem dó essa arena voraz onde pouco importa viver ou morrer, pois a única coisa que realmente sustenta nossa brevíssima existência é a luta.

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Foto: Fffound.com

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