I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Tivesse a troca sido outra




Conto, por Valentina Silva Ferreira.

Eu avisei-te. Muitas vezes, sempre, nas entrelinhas dos meus beijos e nas costuras das minhas palavras. E julguei que captasses os sinais e as legendas que bailavam no rodapé dos meus olhos. Mas, hoje, quando te tacteei na esperança de ter-te esta noite, senti que o braille do teu corpo tinha sido lido pela cegueira louca de outra e, em mim, caiu o nojo e o desprezo por toda a tua pele e carne e quentura que, no fundo, não eram mais que esmolas que tu me davas; restos que alguém deixou. Quem foi ela?, perguntei. E fizeste um ar patético tentando desmentir acusações reais, palpáveis; que se cheiravam; que se sentiam. Fechei os olhos e imaginei um rol de cenas exactas: ela, deitada na cama, entornando a pele nos lençóis - o branco no escuro; pele neve em tecido azul - e tu, marinheiro, segurando a bússola e encontrando o rumo: o sul com certeza; é sempre o sul, será sempre o sul nas viagens clandestinas. Mas quem foi ela?, gritei, desesperada. E tu não respondeste. Limitaste-te a coçar a cabeça e tudo o que me pareceste foi um macaco. Tive vontade de rir, ao mesmo tempo que as lágrimas me caíam, aos solavancos exagerados, pelo rosto e lembrei-me o que tantas vezes te disse: És meu. E comia-te os beijos e os olhares e o tempo que dedicavas a mim que parecia sempre tão pouco, tão mísero, tão passageiro. E o que me dizias? Responde!, o que me dizias? Sim, que serias sempre meu. Mentiroso! Pergunto-te pela última vez: quem é ela? Apenas confessa e eu vou embora. Parto sem olhar uma única vez para trás e deixo-te, aqui e no mundo, sozinho com todas as que preferiste ao invés de mim - eu, que podia não estar à tua altura, que podia, nem sequer, ser o suficiente, mas que te amava e respirava felicidade de todas as vezes que o meu nariz roçava o teu pescoço. Eu avisei-te tanto: nunca me traias. Mas não percebeste o pedido e abusaste da minha confiança. Quem é ela?, perguntei a última vez, cansada do silêncio que me doía tanto quanto a imagem de ti dentro de outra mulher. A tua filha, disseste por fim. E o céu caiu-me em cima trazendo, com ele, todas as memórias que eu guardava como bocadinhos de alegria - ela, mesmo com 19 anos, sentada ao teu colo, ouvindo-te como a menina que ouve o pai; os abraços que trocavam e que me comoviam; os beijos no canto da boca que me pareciam tão inocentes. Cega, tão cega que fui. Eu avisei-te. E agora tenho que te matar. E só agora te tenho por inteiro. Nas minhas mãos, nos meus seios, na minha boca. Agora danças em mim, entras em mim: o teu doce sangue adornando o meu corpo ferido de sofrimento; tu escarlate diluído nas lágrimas dos meus olhos que não querem ver mais nada e na água que escorre pelas minha coxas, a última vez. Eu avisei-te. Teria ido embora se fosse uma desconhecida. Agora ficaremos juntos. Sempre. Para sempre. Porque eu te avisei e te matei. E agora é a minha vez.

Juntos, meu amor, finalmente.

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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
choro, por Marta Marinho.

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