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Até amanhã


Conto, por Valentina Silva Ferreira


Gritos afiados, cortadores de almas e esperanças, cuspiam-se no ar, penetrando paredes, portas, janelas e cabeças. As bombas rebentavam as nuvens, explodiam vidas e casas e memórias com gente dentro. O céu, de um vermelho ácido, afogava-se em fumos tóxicos e era rasgado por aviões furiosos. Lá dentro, no rés-do-chão da Câmara do Comércio, alguns desconhecidos uniam-se na angústia. Setenta e sete horas de enclausuramento, um papo-seco regado a água no estômago, uma cegueira negra nos olhos que, com a habituação, já distinguiam vultos e móveis.

- E se pudessem escolher uma música para tocar sempre, qual seria? - perguntou alguém, de voz doce e fresca.

Ninguém respondeu. Alguns suspiraram. Ela continuou.

- É difícil. Por mais que se ame uma coisa, se abusarmos da sua companhia, ficamos fartos. Não concordam?

Ninguém concordou ou discordou. Ao fundo do corredor um velho fungou e, num gesto rotineiro, tirou os óculos de vista e limpou.

- Ou pensamos que nos fartamos. Estou casado há cinquenta e quatro anos; vinte e quatro horas de convivência diária; muitas discussões. E agora choro a sua ausência - desabafou.

Uma criança chuchou no dedo e sentiu-se a respiração cansada de alguém.

- A música não sei mas se pudesse escolher um livro, seria a Bíblia - disse uma mulher, embrulhada num casaco.

- É curioso escolher esse estando nesta situação. Onde está Deus? - perguntou um homem.

Não houve resposta. O ambiente pesou nas pálpebras de todos. O barulho que vinha de fora era diabólico e impedia qualquer descanso.

- Vamos morrer - concluiu o velho. - As explosões estão cada vez mais perto.

- Deus está aqui - respondeu a mulher, por fim.

- Aqui? Aqui onde?

Três disparos embateram nas paredes. O bebé fungou, o velho refilou, a rapariga da voz doce guinchou.

- Aqui. Nós somos Deus. O senhor tem razão, vamos todos morrer. E sabemos disso. Quantas vezes respondemos à pergunta “e se soubesses que morrias amanhã, o que farias?”

- Respondi tantas vezes… - sussurrou um adolescente.

- Vamos morrer. Sejamos felizes no último momento.

A mãe apertou a criança ao colo e cantou ao ouvido, guardando no nariz aquele cheiro a infância, a inocência, a despreocupação. A menina colou-se ao peito da mãe e, no seu embalo, adormeceu com ursos de pêlo macio e chupa-chupas coloridos. O velho tacteou o chão e encontrou uma mão que não fugiu da sua, ficando, assim, agarrado a um desconhecido que fingiu ser a sua velha. O dono da mão, desabituado a contactos, engalfinhou-se àquele conforto e suspirou. A rapariga da voz doce chamou pelo rapaz. Encontraram-se aos apalpões e, sem hesitar, beijaram-se. Não sabemos se se conheciam, se estavam apaixonados, se a flor da idade impelia-os a isso: não importa. Beijaram-se, despiram-se na escuridão e, na bomba que explodia perto, ele penetrou-a sem modos suaves. A mulher da bíblia rezou, o homem descrente sentou-se a seu lado e repetiu os pais-nosso e ave-marias. Um casal de namorados escondeu-se numa sala vazia e acompanharam os soluços discretos dos outros.

- Faz-me um filho - pediu ela. - Hoje podes fazer.

E naquele escuro denso, os olhos brilharam de emoção.

Na rua, a guerra espezinhava a humanidade. Lá dentro, o amor era feito de diferentes formas. Se estiverem sozinhos, fechem os olhos, oiçam, sintam e sejam felizes pela última vez: o chuchar de um dedo, uma música de embalar, o coração de uma mãe que ama, a respiração de um velho que lembra a mulher, o sangue quente de um mal-amado que é acarinhado pela primeira vez, duas vozes que se cruzam em rezas, duas vozes que gemem por prazer, duas vozes que ronronam suspiros de amor. Uma bomba.

Trinta e um de Dezembro de 2011. Até já. O mundo regressa amanhã.


Um feliz e sorridente Ano Novo!

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Créditos da imagem: Site olharees - fotografia online
Que venha o Ano Novo..., por Meire Lemos.

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