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É Natal, tudo bem, mas sem blim-blom



Crônica, por Giovana Damaceno.


Todo ano é a mesma coisa. Escrevo que não gosto de Natal, um monte de gente discorda e tem zilhões de motivos para se achar certa, enquanto outras tantas compactuam das minhas opiniões a respeito. Então, decido que não vou mais falar nada. E novamente me questionam. E cá estou.

Não é o Natal; é o que fizeram dele. Minha memória anda me pregando muita peça ultimamente, mas posso dizer, com segurança, que na minha infância e até adolescência não via tanto fervo em torno de uma data que pra mim sempre foi angelical, suave, doce... até um dia – e este não me recordo quando foi – em que me tornei avessa a tudo o que vemos a partir do momento em que aquela loja de departamentos coloca seu comercial no ar: “Já é Natal..."

Parece mágica. No dia seguinte já vejo luzinhas, bolinhas, musiquinhas, aquele colorido vermelho originário das vestes do Papai Noel por todo canto e que em nada representa a nossa cultura. Até numa data especial como esta os costumes externos enchem nossos olhos (e o saco também). E a insanidade que se instala só acaba quando a última lojinha baixa suas portas para que os funcionários possam ir pra casa encontrar seus familiares (quando os têm).

Faltam poucos dias para o Natal. E ainda permanece o desejo de ano após ano: dormir dia 1 de dezembro e só acordar dia 30, em tempo de me arrumar para os festejos de Ano Novo – disso eu gosto. Só não seria tão bom dormir tanto, porque perderia o aniversário do meu filho, e o meu.

Aliás, maldade da minha mãe, que reproduzi com meu pobre filhote. Quem dentre vós se lembra de um amigo que faz aniversário entre o Natal e o Réveillon? Quem compra dois presentes? No meu caso é ainda pior. Minha data é próxima da chefe e no dia de cantar parabéns com bolo e velinha, ouço: “Vamos lá, pessoal, é aniversário da chefe!” só me resta rir da situação, porque não tem outro jeito.

De volta ao fervo natalino, ainda tento me conformar que o mundo mudou, que as pessoas mudaram, que os valores são outros e que Natal hoje em dia é apenas comprar muito presente, encher as lojas, lotar os shoppings, entupir o trânsito e comer sem noção na noite do dia 24. E só. Se quiser fazer algo minimamente parecido com o que vi na infância, tenho que abstrair, fingir que não sou deste planeta, me esconder numa caverna e tentar convencer maridão e filho a ir junto. Ou seja, que me conforme em simplesmente envidar todos os esforços para não sair às ruas e não me aborrecer.

Mal humorada? Talvez. Mas não indisposta. Ainda vou comprar alguns presentinhos, me reunir com a família, cear, confraternizar. É isso o que nos pedem as regras de bom relacionamento e as necessidades afetivas, aquelas bem lá no fundo, atávicas. Não me sinto bem nesta época, mas não saberia passar por ela sem tudo e todos, nem dormindo. Mas, de preferência, sem Papai Noel e sem blim-blim-blim-blom-blom-blom.


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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Natal, por Karina Bertoncini.

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