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A Grande Arte de Juan Rulfo

A Grande Arte de Juan Rulfo
Artigo para a seção Entre, por Fernando Pita.
nandopit@uol.com.br

Desde que se dedicou ao fazer artístico, o homem optou por estabelecer fronteiras entre as artes, dividindo-as segundo critérios culturalmente variáveis. Nós, homens desse Extremo Ocidente a que denominamos América Latina, herdamos da civilização greco-romana uma divisão sobretudo sensorial, pois as Musas de Apolo, mesmo oito, apelavam já aos cinco sentidos do homem. Alcançando sempre a emoção humana, ou apontando para o vazio, como querem alguns, temos artes que falam primeiro à audição, como a música e a oratória; ou à visão, como a pintura e a literatura, posto que o texto é lido; etc.

Mas se fronteiras são estabelecidas, desperta-se também o desejo de atravessá-las, e a história registra diversos nomes que se empenharam, ao longo de sua produção, em cruzar as fronteiras dentre as artes: uns como Picasso – cuja obra como ceramista será sempre eclipsada por sua pintura – dedicaram-se a uma segunda arte na busca de tão somente um novo meio de expressão; outros, como Marcel Duchamp ‑ que abandonou a pintura e a escultura em prol do xadrez ‑ buscaram com tão afinco novos caminhos que cruzaram definitivamente tal fronteira. Poucos souberam manter-se exatamente sobre a fronteira, construindo para si uma zona de intercessão em que puderam transitar de modo livre por dois ou mais ambientes artísticos. 

Juan Rulfo é um deles.

Literato mexicano, Rulfo (1917-1986) foi o autor de apenas dois livros: os contos de El Llano en llamas (1953) e o romance Pedro Páramo (1955) obras em que se plasma uma narrativa quase telegráfica de tão enxuta – Rulfo, hoje, estaria bem à vontade usando o Twitter – que logo seria elevada à linha de frente da narrativa hispano-americana, influenciando toda uma geração: aquela de Borges, García Márquez, Julio Cortázar, Carlos Fuentes e Vargas Llosa, todos fãs declarados de Rulfo.

Contudo, a obra de Rulfo não pode ser entendida na íntegra sem atentarmos para sua produção fotográfica. Os cerca de seis mil negativos que compõem seu acervo não perfazem um campo à parte da arte de Rulfo: longe de serem também um simples hobby do autor, o material fotográfico complementa os textos de Rulfo, não se tratando tampouco de reconfigurar e reapresentar seu discurso textual sob novo formato. Preto e branco sim, mas não preto no branco, pois Rulfo não fotografa aquilo que poderia ser a base de suas narrativas, ele vai além: cada foto sua é uma narrativa em si mesma, tão condensada – e por isso mesmo adensada e densificada – que não apenas dispensa qualquer palavra para seu pronto entendimento, como não nos permite descrevê-las de modo preciso.
Mas qual é a temática de Rulfo? Com que argamassa molda sua produção literária ou fotográfica? O que há enfim de comum entre elas? Isso se percebe nos temas propostos, que podem ser todos resumidos em uma só palavra: México.
Em suas narrativas, assim como em suas fotos, o que Rulfo intenta expor é a alma de seu país, e esta não é aquele México folcloresco que conhecemos através dos filmes de Hollywood, cheio de bandoleiros, toureiros e mariachis. Todos eles estão lá também, mas o que Rulfo mostra é aquele país que guarda uma relação especial com a morte. Trata-se do México que festeja o Día de los Muertos e reza a la Santa Muerte. 

O mesmo México que sua literatura aborda no realismo mágico de Pedro Páramo, obra em que, pouco a pouco se percebe que todas as personagens estão mortas. Suas fotos são tudo aquilo que sua máquina de escrever não poderia captar sem recorrer àquele manancial verborrágico que, desde o início, Rulfo se impusera represar a qualquer custo. Por isso, é em suas fotos que estão, capt(ur)adas a têmpera e a temperatura, as sombras e os silêncios, a magia e a melancolia daquele ambiente rural que, para o autor-fotógrafo, eram a essência do México. 

Porque o México para Rulfo, é o das ruínas astecas e do casario colonial. Para ele, a Modernidade é muito mais decadente – posto que sem um espírito que a (con)forme – que o passado, mesmo violento, de seu país. É um México de rostos sem nome, mas com uma essência latente, atemporal, solenes ao ponto de se tornarem litúrgicas; uma essência distinta e distante da de suas personagens, nomes muitas vezes sem personalidade, personas no sentido latino de “máscara”.

No entanto, de um modo ou de outro, Rulfo fala de seu país – e de seu povo – de uma forma concreta, que não admite polissemias: e se não há como impedir que o leitor crie suas imagens internas, ao que vê suas fotos isso é peremptoriamente negado, uma vez há toda uma composição de imagem que acaba por conduzir sua temática para além da mera representação de seu país. O que Rulfo aborda, em suas fotos e em seus livros, é o tempo, e a maneira como ele transcorre, num país que se constrói sob a luz, mas que vive uma realidade crepuscular, pois a complementaridade literário-fotográfica da obra de Rulfo burla o tempo e insere sua obra num continuum espaço-(a)temporal que, diluindo as fronteiras entre as diferentes artes que praticou, dissolve-se assim naquela Grande Arte, capaz de vencer a morte, que os alquimistas  metaforicamente denominavam “Elixir da Longa Vida”.


2 comentários:

  1. "Cada foto é uma narrativa em si mesma". Belo texto, professor. Poderia também nos brindar com o Julio Cortázar?

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  2. A Arte tem em si essa essência latente e atemporal percebida por Rulfo. Excelente texto! Abraço fraterno.

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