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O escritor



Crônica de Beatriz Gil*.


Há 14 dias que deixaste de aparecer cá em casa. Que deixaste de telefonar e que as tuas meias deixaram de aparecer espalhadas pelo chão como se fossem um bocado de pó que o aspirador não apanhou.

Ninguém pergunta por ti, por isso não falo de ti, mas tem dias em que surges vindo do nada e me toldas as ideias até não restar mais nada, só a tua voz e aquele telefonema

-Lamentamos.o coração deixou simplesmente de bater.

e depois um barulho de fundo que parecia a sineta da escola a chamar a criançada toda para o almoço, e as correrias pelos corredores, e a comida escondida dentro do pão, e a professora sempre aos gritos a ameaçar que fazia queixa de nós ao director, e o director a compactuar connosco, a dar-nos chocolates e a dizer

-Vá, não se portem mal, olhem que para a próxima ficam mesmo de castigo!

e nunca ficávamos.

Juro que não te procuro. Não pesquiso o teu nome na Internet nem percorro a lista de contactos do telemóvel à procura do teu nome. Não revejo as tuas mensagens nem os teus e-mails. E não olho para as fotos porque tu já não existes e dentro desta constatação demolidora convenço-me de que, ainda que as olhasse, tu já lá não estarias. ter-te-ias evaporado e em teu lugar a banca da cozinha, uma árvore, a cadeira vazia de uma esplanada com o mar ao fundo.

-Casquinha, vamos à praia?

a tua voz a principiar e a assomar-se na porta e depois não acontece nada, nem Verão é. Está um frio que não se aguenta e fico com os pés gelados todas as noites. Procuro os teus, mas também os levaste, pode ser que morra com um resfriado e depois

-Lamentamos. o coração deixou simplesmente de bater.

o mistério do teu desaparecimento. Dava um bom titulo para um dos teus livros, talvez para aquele ultimo que andavas a escrever. ainda que nada tenha a ver com a tua morte, com sorte encontro por lá a resposta para o mistério do teu desaparecimento e depois consiga tirar esta coisa que tenho embrulhada no meu peito há 14 dias, quem sabe as tuas meias enroladinhas no chão, quem sabe as folhas que amassavas com fúria e largavas á volta da secretária onde custumavas passar horas, enfiado nos teus cadernos, nas canetas BIC (nunca te percebi a obcessão pelas canetas BIC, quando te ofereciam aquelas muito caras pelas festividades enfiava-las na gaveta e era um ar que se lhes dava).

Custa-me muito que nunca mais te vá ver a cruzar a rua, num extase louco só para me abraçares e a tua voz

-O teu corpo é um livro por escrever

e escrevias nos meus braços, nas minhas pernas,na minha barriga, na minha testa, com o meu baton vermelho que deixei junto ao teu corpo, dentro daquela caixa de madeira em que te enfiaram e que te leva todos os dias um pouco para mais longe de mim.

Sabes, hoje quando cheguei a casa despi-me na entrada e larguei as meias pelo chão, todas enroladinhas como tu fazias, vou deixá-las por lá à espera que o meu escritor regresse, se assome à porta e me diga

-Casquinha, vamos à praia!

ou que pegue nas meias e as ponha na tomba da roupa para lavar.

e eu, que não discuto, não levanto a voz, nem tão pouco perco as estribeiras a ouvir do outro lado

-Lamentamos.o coração deixou simplesmente de bater.

a gritar para o lado de lá

-Não!

e o barulho da sineta da escola a chamar a criançada para as aulas e elas, com muito pesar a resignarem-se, a aceitarem, a subirem a escadaria com a mochila demasiado pesada às costas, e no bolso um papel amarrotado

-És bonita!

e o meu sorriso de menina, tão feliz, tão certa de seres tu o homem da minha vida (e foste. e és.), tão iludida com a nossa eternidade, meu amigo,meu amor, meu escritor.


*

Beatriz Gil mora em Lisboa e escreve no blog Gente com Gente dentro.



Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
---, por Lúcia Letra.

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