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Bendito


Crônica, por Mariana Collares.



Na beirada da minha rua, dei para notar um cão. Está sempre lá. É marrom, quase bege, dessas cores de cachorro que ninguém entende direito, e tem o pêlo despenteado pelo vento e vive a dormir embaixo do meu pé de Buganvília. Tem dono mas, ao que parece, ele ou eles gostam ou preferem (ou por puro despeito)  deixá-lo pela rua mesmo, em plena liberdade e verão, a gostar-se assim. Não sei o nome, mas já o apelidei de “Bendi” – apelido de Bendito, nome  com o qual o batizei. Abrasileirei o “Benji” dos meus tempos de menina – um filme muito famoso que nos fazia chorar, à época, com os percalços do cãozinho simpático que tinha esse nome. Saio de casa e lá está o Bendito. Tenho que cuidar para não passar com o carro por cima dele. Fico imaginando se ele o faz por gosto – essa mania de se colocar muito perto das rodas do carro – por vontade ou falta de coragem de dar fim à própria vida. Depois penso que não há, em toda a estatística canina, qualquer menção aos suicídios voluntários dos cães –  e então fico em paz. Volto do trabalho e lá está o Bendito em frente à casa, deitado ao pé da Buganvília. Dia desses, ostentava uma camiseta e quase foi morto por um caminhão... Depois a camiseta sumiu e novamente o Bendito veio, “nu” em pêlo, a ser o dono da rua, mesmo destronado - porque agora a rua é dele. Vez em quando noto que me olha muito sério, como a zombar da minha solidão. Deve me chamar  também de algum nome que não conheço, assim como o chamo a ele, aqui do meu lado humano. Vezes há que penso que gostaria de trocar com ele o trabalho: ele sairia de carro e iria bater cabeça em cima de algum problema e eu ficaria ao pé da Buganvília, mas acho que Bendito jamais concordaria com tamanho despautério. Ele que sabe viver...

Hoje vi-o muito amofinado a olhar para um “cocker spaniel”,  acho que com ciúmes dos desvelos do seu dono. Vi-o olhar comprido para o cachorro, que corria tranqüilo e feliz, e tive muita pena.  Mas depois abanou o rabo como a dizer que não trocaria todo o desvelo e cuidados pela inconfundível liberdade de ser o cão da rua, e deitar-se, majestoso, na hora do sol, ao pé da Buganvília – coisa que só ele pode. Já pensei em trazê-lo pra casa. Imaginei o Bendito achando-se mais amado, mas do lado de dentro do portão. Depois pensei que Bendito tem, na verdade, muita razão: nada é melhor do que a liberdade. E vamos combinar que Bendito tem sorte: a Buganvília dá uma sombra invejável e o sol desta época está de fazer queimar a moleira. De mais a mais, tem dono, casa e comida. Anda gordo pela minha rua, e não fosse pelo emaranhado do pêlo, diria tratar-se de um cão de madame. Então minha preocupação cinge-se em sabê-lo ali, no seu canto, sereno, ao largo do sol. Vou para o trabalho tranquila, sabendo que a Buganvília possui companhia e cuidados. E eu terei uns olhos tristes, ao fim do dia, a me dizer “boa noite” com um jeito de “desculpe-me” educado. Entro em casa e lá estão os gatos, a olhar comprido para o Bendito, cheios de vontade de estar com ele. Já somos uma família. Nos adotamos a todos e mantemo-nos perto com um amor que cuida de longe, mas sempre presente -coisa de quem está acostumado à solidão com Deus e Buganvílias...

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