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Ensaio sobre a infelicidade



Conto, por Gil Rosza.



Uma vez que não consegue se chegar a conclusão alguma sobre a existência da felicidade, há quem diga que a infelicidade, algo que ninguém duvida da existência, começa no momento exato em que a ficha cai. Isso faz algum sentido, pois saber manter a ficha continuamente suspensa é uma técnica eficiente para evitar o sofrimento quando diante de constatações realistas, afinal, quem não sabe que são as ilusões com a potência curativa de um cafuné, que refrigeram as almas em tormento? Quem nunca ouviu falar que injetar utopia diretamente na veia, alimenta a quimera que supre o aflito?

Além desse efeito anestésico, a ficha quando constantemente suspensa possui outro beneficio, o de retardar a infância fazendo-a penetrar vida adulta adentro, sublimando o desconforto da solidão até que o carente/sofredor se acalme como mártir do próprio desespero.

Nessa infância artificial o consolo vem de se acreditar que tudo o que acontece, seja o bom ou o ruim, nunca acontece por méritos ou deméritos próprios, nem pelo acaso que incide cego e injusto sobre todos nós. Enquanto a ficha não cai, a simplificação rasa dos motivos da solidão e do próprio sofrimento é muito mais útil na busca sem fim pela “felicidade” do que qualquer complicação filosófica que se possa transformar num ensaio sobre esse assunto.

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Créditos da imagem:
Ilustração: Zac Gash

Um comentário:

  1. Oi Gil

    Gostei do seu conto. Para quê enxergar o que vamos gastar muito tempo e esforço para esquecer?


    Abraços

    Leila Rodrigues

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