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Crônica, por Giovana Damaceno.



O telefone toca no horário marcado. Ele já sabe do que se trata e está preparado para o diálogo e tudo o que vai se seguir à breve conversa. Está acostumado a receber tais pedidos e também sabe como cobrá-los perfeitamente. De tudo o que faz profissionalmente nos últimos anos, esse é um dos raros momentos de relax que pode desfrutar da correria que é seu trabalho.

- Alô?
- Oi, sou eu, tudo certo?
- Tudo certo, sim. São quantos?
- Desta vez serão cinco, apenas. Dá pra ser?
- Claro, daria até mais se você quisesse. Já sabe como efetuar o pagamento.
- Sei, sei. É só você me dar o endereço e o horário, que faço tudo como combinado.
- Rua 29 de fevereiro, número 10.822. O bairro você já conhece. Só mudamos de prédio. Dia e horário de sempre.
- Ok, combinadíssimo, então.

Nem ele mesmo sabe o que elas veem de tão importante nisso. Todo ano se submetem, nunca as mesmas, com exceção da cliente, porém o interesse é o de sempre. Não querem perder a tal oportunidade, por nada. Mas, como fazem questão e fazem o que for preciso, é ele quem sempre acaba se dando bem. É o que ele costuma chamar de venda especial.

***

Dia e hora marcados, lá estava a cliente. Não se constrangia em chamá-la assim, pois no final das contas considerava tudo aquilo um negócio. Abriu a porta. Uma das dezenas de portas do corredor sem fim, do prédio de centenas de apartamentos. A cliente entrou e com ela mais quatro. Dentro do apartamento, tudo organizado. Bebida, petiscos, música de ótima qualidade e o sócio na cozinha, enchendo taças de proseco para o que seria um bate-papo inicial.

Elas se olham com estranhamento; não têm a noção exata de como se desenrola a conversa, embora saibam o que vem depois. Embora tudo aquilo seja novo, estão naquele lugar porque vão sair dali com algo que querem muito. Por isso toparam o tal negócio. Para a cliente, nada de mais. Ela conhece os dois sócios e sabe muito bem o que deve fazer, como fazer, de que forma se comportar. Afinal, já é experiente nisso. As amigas a procuram para o mesmo fim, toda vez que vai chegando a data, mas há poucas oportunidades, então ela tem de fazer uma seleção. Os sócios não revelam, mas são exigentes.

São seis da tarde de uma terça-feira e a bebida de entrada provoca o relaxamento esperado. Eles não têm pressa, são delicados com as clientes e querem curtir as horas que têm pela frente. Puxam conversas triviais; elas se sentem à vontade naquele ambiente, bebem mais um pouco. Eles partem para o uísque, elas para o vinho. A música fica mais envolvente e elas resolvem tirar as sandálias. Recostam-se nos sofás, deitam, se esticam no tapete. Eles entendem que já e hora de efetuar o negócio propriamente dito, que chamam de “a delícia da profissão”.

Cinco mulheres para o deleite de dois homens. Não é uma festinha, não há barulho, os vizinhos não são incomodados. Elas estão ali com objetivo claro e se entregam sem pudor. Sexo, muito sexo. Elas são usadas e abusadas, topam ceder a todos os desejos e fantasias, se beijam, se mordem, se trepam, se misturam numa rodada de sexo sem fim. Todas são devidamente saboreadas e também saboreiam com apetite. Entraram no acordo, mas têm prazer no que fazem.

Mais de meia-noite e eles estão exaustos e satisfeitos. Elas também. O que precisavam fazer estava feito. Não eram forçadas a nada. Era uma proposta feita, em troca de algo que queriam. Topasse quem quisesse. E elas topavam. E gostavam.

Outra taça de vinho para arrematar o encontro, enquanto se recompõem para deixar o apartamento. Na porta, um dos sócios as espera com um envelope na mão. Elas se dirigem à saída, sorridentes. A cliente pega o envelope e agradece.

- Não há de quê. Estão aí os cinco ingressos. Camarote vip. Espero que gostem dos shows deste ano.
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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
[A Safety Spot Light] - Everyone Needs, por Nuno Moreira.

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