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O bramido das águas



Conto, por Gil Rosza.


É antigo o grande rebanho trêmulo clamando por uma barganha que favoreça a própria salvação. É uma rendição sem resistência aos que usam sofismas e falácias para montar o pano de fundo para dar sentido a existência. A única coisa que os move para um objetivo é o medo da morte, a iminência de uma perda tão aguda que precisa de um eufemismo para que não doa tanto.

Para os que passivamente se submetem ao pastoreio, basta um enigma no horizonte, um paradoxo atemporal, uma equação de infinitas variáveis, para logo emitirem em coro um chamado de desamparo.

É a necessidade de uma voz que os mantenha de joelhos no mármore limpo e com o rosto voltado para o leste, como os súditos de um califado em que virgens se entregam espontaneamente para uma sacerdotisa que antes de imolá-las, irá banhar-se no leite das que decididamente não sabem o que fazer quando encontram a porteira escancarada. Lá fora, o uivo da alcatéia cria pânico entre elas e as fazem implorar aos céus por um border collie que as conduza direto para lâmina afiada, mas piedosa, do tosquiador.

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Foto: Sarolta Bán

Um comentário:

  1. As ovelhas seguiam confusas mas tememtes levadas na embarcação que era levada pelo vento.he he he eu não levo jeito sim ou não? Sem mais brincadeiras eu gostei do conto!

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