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O escritor e o branco incerto



Artigo para a seção Escrita Criativa, por Carolina Bernardes.


          A angústia de deparar-se com a página em branco pode ser um clichê, mas a expressão se encontra desgastada exatamente por ser um acontecimento comum a todos os autores, sejam eles experientes ou em suas primeiras incursões pelo universo literário. A recorrência faz o clichê e o clichê se fundamenta pela repetição. Portanto, como não falar do começo?

          Dar início a qualquer texto costuma ser uma etapa do processo criativo tão decisiva quanto as posteriores e, muitas vezes, a mais importante. O medo da folha em branco (tela?) pode fazer um autor adiar a sua escrita ou a abandoná-la, por acreditar que a inspiração também o abandonou. Mas se alguns autores sofrem pela falta de idéias, outros se consomem pelo manancial de possibilidades. Inúmeros temas, caminhos, escolhas que levam a um porta, a outra e outra. Qual seria a atitude mais adequada nesta fase preliminar?

         Uma das opções seria esquecer as boas razões de uma idéia, libertar-se do senso crítico que corrige e determina o bom e belo. Nesse caso, não seria necessário esperar nada, nem tomar coragem, fazer boas leituras e planejamentos. Não seria necessário nem mesmo saber se você se encontra no caminho certo. Basta escrever e deixar as primeiras idéias tomarem forma pelo próprio processo da linguagem: palavra atrai palavra. As idéias não brotam da atmosfera. Portanto, melhor que esperar a brisa passar com idéias penduradas, ou o surgimento da confiança e da convicção, é sentar e usar a escrita como artimanha de descoberta do tema, dos personagens, da trama, do enredo. Escapar do raciocínio judicioso, das inibições e, principalmente, do “mais tarde”. Estamos sempre evitando o começo das coisas com o pretexto de que o planejamento não está pronto. O escritor deve atender ao apelo da escrita e se colocar em ação, sair da passividade que a espera muda pela inspiração evoca. É perfeitamente normal a angústia da página em branco, pois o autor não pode conhecer uma história que ainda não foi contada, um poema que não foi cantado, uma tese que não foi defendida. Esta história, este poema, esta tese passarão a existir somente após o processo de criação e ninguém, no mundo, pode conhecê-los antes disso, nem mesmo o autor. Este é o começo da incerteza.

          É um excelente recurso para o começo, quando nada existe ainda, assumir a passividade fecunda, o que é diferente de passar as horas imaginando, sonhando, esperando a chegada de alguém que não virá. É deixar o texto acontecer livremente, sem o controle dos critérios elaborados e plenamente desenvolvidos. Anotações de imagens, de palavras, associações, fragmentos, uma frase, ou mesmo um impulso de raiva ou de alegria... e para isto, é imprescindível a presença constante de um caderno. A capacidade de organização, discernimento e domínio será usada em outro momento da escrita, quando o autor se coloca a elaborar a escrita definitiva, uma segunda versão.

          Há, porém, outra alternativa para encarar o monstro do começo: fazer exatamente o movimento inverso do descrito acima – estudar. Uma simples imagem, frase ou sentimento podem ser o bastante para a escolha do tipo de pesquisa que o autor deve fazer. Mais uma vez, não se deve temer a incerteza. As sensações e intuições podem ser boas orientadoras para o começo, e isso significa deixar que tais brumas nos levem naturalmente (como cegos) aos livros e outras fontes de conhecimento. Ler, ler muito, mas sabendo que, neste estágio, não se faz uma leitura descompromissada, de puro deleite, e sim a leitura atenta, buscando nas entrelinhas, no submundo da escrita e de nossos arquivos mortos da memória as relações que dessa alquimia podem surgir. Nesses livros podem estar a nossa história. Este recurso nos conecta com a tradição literária, com as vozes de diversos autores, com as construções imagéticas e lingüísticas que circulam entre as estantes e os leitores. É se colocar em diálogo com algumas dessas vozes e se ver escritor essencial em meio ao torvelinho literário, como figura importante a contribuir na construção da voz social e literária. Faz bem ouvir os antepassados. Faz bem pesquisar teorias de qualquer área (sociologia, política, história, religião, literária). Faz bem abocanhar a página em branco com a multidão de combatentes que nos acompanham.

         Tantos são os recursos quanto o número de autores e livros. E tantos são os livros que superaram o começo. Aliás, o branco é somente a mistura de cores, assim como a incidência da luz solar na água reflete um arco-íris.

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