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Sonho lúcido



Conto, por Jefferson de Morais.


Quando sonhamos nos tornamos deuses, e os pesadelos são o medo que nós, deuses, temos de morrer, de deixar de ser para passar a existir. A cena do fruto da árvore do conhecimento sendo devorado por Adão e Eva talvez tenha sido o grande pesadelo de Deus. Dormindo, no sétimo dia, viu, o Criador, suas criaturas devorarem com ânsia o fruto proibido. Nos primórdios, conhecimento era coisa completamente divina; o sabor do saber era algo que homem nenhum poderia apreciar. E Deus revirou-se debaixo de uma figueira, enquanto dormia e tinha aquele pesadelo que só lhe aproximava a sensação de morte. Se os pais da humanidade, depois de se alimentarem do conhecimento do mundo, comessem da árvore da vida, seriam como o Criador, Eterno e conhecedor de todas as coisas. O Todo-Poderoso sentiu medo. A existência de alguém como Ele seria a mais terrível morte. E foi num instante de desespero que, despertando no final da tarde do primeiro sábado do Universo, Deus amaldiçoou Adão e Eva e condenou toda a humanidade.

Por meio de um sonho, o homem ganhou o mundo, tornou-se livre. Contudo, para além dos portões bem guardados do Éden, ele precisou reinventar o que antes era chamado de “o estado eterno de mutabilidade das coisas”. Sabiamente, percebendo que a vida passou a andar de mãos dadas com o tempo, começou a regulá-lo com a ajuda do sol. No décimo terceiro dia, ainda com o gosto suave do fruto na boca, o homem sonhou com o dia em que não haveria mais horas; acordado, sonhou com o dia em que o seu tempo voltaria a ser o sempre. Nesse dia, a vida por si só daria conta de iluminar o mundo, sem o auxílio de nenhuma estrela. Mas sonhar é muito perigoso. Deus sabe.

***

Naquela noite não fechou a janela. Isso pode parecer loucura para quem respira a violência das grandes cidades, mas a lua estava tão grande e tão linda, que naquela noite a sua vida inteira ficou iluminada.

Um mundo dormia lá fora, e isso o deixava completamente angustiado. Dizem que, quando dormimos, o espírito é capaz de sair do corpo e viajar, conhecer novas pessoas, novos lugares. Essa ideia o excitava. Essa ideia o assustava. Tanto, que já não teme nem aos vivos e nem aos mortos; só guarda medo dos que dormem.

Na rua já se fazia o silêncio, e do lado de dentro daquele apartamento ele se deliciava com a completude e a complexidade do nada, da coisa-nenhuma. Depois das duas da manhã, esvaziava-se do mundo e de si mesmo. Ele se esquecia das notícias, das contas, dos trabalhos de faculdade. Carlos tentava não pensar em política, em dinheiro, no sexo, nos anjos, na vida, na morte, em nada. Tentava não pensar, para, em consequência, deixar de existir. Contentava-se com essa alegria de ser, simplesmente, ainda que por alguns instantes.

A mente humana é fértil, e o vazio ativa todo um ciclo produtivo. Enquanto o sono não vinha, ele permanecia sentado na cama, sob a luz da lua que entrava pela janela. Tomou mais um gole de uísque e, após o último trago no cigarro, não resistiu e pensou: “há tanta vida aqui dentro, há tanta vida bem dentro de mim… mas será que isso é o bastante para tornar-me vivo?”. Carlos temia perceber que não. Hesitou abrir seus olhos por alguns minutos, com medo de olhar a seu redor e ver seu corpo estirado sobre a cama ou caído sobre o chão, sem nenhum sinal vital. Foi nesse instante que ouviu os gemidos que pareciam vir da varanda. Foi quando tudo começou, quando recebeu sua visita pela primeira vez.

Carlos abriu os olhos instantaneamente e seu coração, acelerado, naquele instante não soube a diferença entre sístole e diástole. Assustado, dirigiu-se lentamente à sacada, onde, num canto, viu uma mulher sentada no chão, com os joelhos flexionados, apertando um livro contra o peito. E, sem notar a presença de Carlos, ela gemia, loucamente. Ela revirava os olhos e, apertando o livro contra o peito, gemia, estremecia, se contorcia, ofegantemente. Quando o viu, a mulher, em puro êxtase, estendeu-lhe o livro que segurava nas mãos e ordenou-lhe, sorridente:

– Leia-me.

Mesmo sem entender a estranha ordem, Carlos pegou o livro e o folheou. Ela continuou olhando para ele, esperando que de seus lábios saísse alguma poesia. Então, ele começou a ler. No instante em que leu os primeiros versos, a respiração da mulher voltou a ficar ofegante, e no decorrer da leitura ela voltou a gemer, embaraçando seus cabelos e contorcendo-se, completamente enlouquecida. Percebendo o quão excitada ela estava, Carlos impostava sua voz e lia o poema lentamente, fazendo pausas e lhe dando corpo, ritmo, gosto, cheiro, som. De repente, um pneu cantou na Barão de Ipanema e, com o susto, Carlos interrompeu a leitura por um ou dois instantes. A mulher, severamente, lhe disse:

– Leia-me! Leia-me! Ah, não, não pare! Não pare, continue! Leia-me! Leia-me! – dizia-lhe a mulher, desta vez em tom de súplica, com sua voz estremecida. E Carlos prosseguiu a leitura de onde parou:

Antes do coito, felação:
que cada palavra seja sentida,
tocada, acariciada, beijada,
lentamente. 

Depois, que a poesia penetre
no fundo profundo, úmido e quente
da mente cansada, anestesiada,
ofegante, semideusa, semimorta. 
Que, então, rompa-se o hímen – barreira que impede o pensamento. 
Que haja amor, prazer, fantasia.
Que haja tremor, arrepios, gritos de dor, puro orgasmo:
que venha o gozo pela geração de novas ideias...

Quando Carlos terminou a leitura, a mulher estava caída no chão, respirando com dificuldade. Ele ficou ali, observando-a por alguns instantes, até o momento em que ela, totalmente nua, levantou-se e, chegando para mais perto dele, visivelmente ainda faminta, encarou-o com corpo de fada e olhos de Esfinge.

Carlos contemplou cada detalhe de seu corpo, num momento quase eterno. Foi quando ela, olhando para ele fixamente, pegou-lhe o livro, o atirou pela janela, segurou as mãos de Carlos, colocou-as sobre seus seios, beijou-lhe o pescoço, colou-se em seu corpo e disse-lhe ao pé do ouvido, já se estremecendo:

– Agora, me escreva. Me escreva e não me decifre. Este é o exato momento em que eu te devoro.
Um vento frio entrou pela janela. Uma nuvem bloqueou a luz da lua. O interior do apartamento escureceu. O copo de uísque se desfez em mil pedaços pelo chão. Carlos abriu os olhos assustadamente. Na rua já se fazia o silêncio, eram três horas da manhã. Um mundo inteiro já dormia lá fora, e o sono também já havia chegado para Carlos, que se deitou sobre a cama sem fechar a janela.

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Jefferson de Morais é poeta, contista e estudante de Letras da UERJ. Seus textos procuram repensar a função da poesia – e da Arte de um modo geral – no mundo contemporâneo, bem como as aflições do homem diante do Universo, da vida e de seu inevitável final.


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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Rosto de bronze, por Wellington Souza.

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