I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Devoramor



Conto, por Caranguejúnior.


Naquela noite, o amor entrou na minha casa, sem bater e saiu comendo tudo o que via pela frente.

Comeu meus tênis, meus lençóis, o calendário da parede, meu barbeador, devorou minhas roupas, engoliu meu PC, comeu meus cadernos e meus livros. Comeu minha camisa do Sport, meu boné, até os CDs de frevo e uma garrafa de Campari pela metade. Comeu meu celular, meus documentos, comeu um Poema inacabado e um chinelo velho. Devorou minhas meias, minhas cuecas, meu travesseiro, comeu minha cama, tomou meu perfume, comeu meu pandeiro, minha gaita, comeu meu guarda roupa...

Saiu comendo tudo na cozinha, minha geladeira, meu fogão, a garrafa de café que estava quebrada, devorou a mesa, os copos, comeu três panos de prato, comeu as travessas, os "tapoé"... Correu pra sala e danou-se a comer o sofá, a TV, o aparelho de som, as cortinas, comeu a mesa de centro e as flores artificiais que enfeitavam os cantos do recinto. Comeu as paredes da minha casa, o piso, o telhado, devorou as vigas como se fosse spaguetti, engoliu as colunas, chupou tijolo por tijolo.

Voltou para mim com aqueles olhos grandes e começou...

Comeu meus medos, minha falta de esperança, minha intolerância, minhas angústias, comeu as raivas, as descrenças, comeu minha insegurança, minhas ilusões, comeu meu egoísmo e meu orgulho, devorou todo o ódio e desamor que havia em mim.

Quando dei conta, o amor já estava devorando o meu Mundo!

Por fim, quando pensei que aquilo tudo havia acabado, o amor olhou no fundo dos meus olhos, e me comeu...

Saiu lambendo os dedos, enquanto eu descia por sua goela abaixo... Sorrindo, agradecido e pensando: “Onde é que ele estava que não havia passado por aqui antes??”



PS: Tudo voltou ao normal, pois, a única coisa que o amor não havia comido, tocou as seis da matina... A PORRA DO DESPERTADOR!

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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Janela de Luz, por DJALMA PINHEIRO.

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