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Meu esconderijo



Prosa poética, por Marcelo Sousa.


Preciso de uma casa nova, silenciosa, onde eu possa ver o mar... ou caminhar pouco até molhar os pés nesta imensa presença viva que em ondas vem beijar a cidade, lambendo-lhe com a voracidade calma de um canibal que começa a comer sua vítima não pelo corpo, mas pela alma. Quero cheiro de maresia, e no lugar de um aquário preciso de um jardim de inverno, e um lago interno que divida os ambientes, com carpas japonesas que vivam e vejam-me envelhecer e permaneçam neste mundo para depois dos tempos em que meus ossos virem pó.

Preciso de uma casa onde eu possa sentir cheio de chuva no mato, ouvir a cantiga dos sapos, as aves do dia e da noite, o cheiro das frutas que caem no chão perfumando a terra, gerando novas árvores, um pomar cujos deuses foram contratados para cuidar... uma casa pintada com tons de areia e marfim, com poucos móveis, austeros mas todos muito aconchegantes, e uma sala imensa e vazia, com um tapete alto e travesseiros por toda parte, que seja a sala dos travessos, a sala do sexo, a sala dos pensamentos, a sala dos amigos, a sala do choro e do riso, enfim, um salão de abrigo.

Preciso de um tabuleiro de xadrez de madeira de lei ou de pedra esculpida, uma biblioteca para os meus dias de solidão, que serão muitos, mesmo tendo o amor no quarto ao lado, precisarei estar sozinho, incomunicável, intocável, como um ser que fosse lido por seus próprios livros, que fosse comido pelas beiradas por suas próprias palavras, e que em silêncio aprenda a chorar, envelhecer, e recobrar as forças e voltar ao mundo, ao namoro-casamento-ensaio-de-lançar-se-ao-firmamento.

Preciso de cozinha para exercitar minha alquimia, de sala de jantar, de uma adeguinha que nos sirva para o dia-a-dia, para os dias quentes com prosecco... e para o bom vinho tinto das noites frias. Preciso de uma rede na varanda, para o namorar e descansar dos nossos corpos, quando, já velhinhos, precisarmos do embalo natural da rede para matar-nos a sede de movimento, que aos poucos o tempo nos rouba, sorrateiro.

Preciso de uma casa com portas sem trincos, sem trancas, sem cadeados. Uma casa onde todos sintam-se enamorados uns pelos outros, mas que seja uma casa para poucos, para os bons, para os melhores, para os que se falam com olhares e sorrisos, uma casa para os amigos. Uma arquitetura do tipo japonês ou mediterrâneo, tudo mundo espontâneo, tudo muito quieto, mas que tenha um teto alto que reverbere nossa bossa de amantes, nossos gemidos, seu piano, meu violão, nossas cantigas de amor e ódio, que nos faça ouvir a nossa própria voz quando estamos brigando... e nos deixe envergonhados por brigar com quem nos é mais amado.

Preciso de uma casa pequena o bastante para que te encontre a qualquer hora e a qualquer momento sem gastar mais que cinco segundos... e grande o bastante para suportar entre suas paredes todo o sentimento do mundo!

Preciso de uma casa onde caiba minha fúria e minha calma, onde caibam meus desejos de festa e de solidão. Onde caibam seus caprichos de mulher e tuas indecisões de menina. Onde caiba todo tipo de rima que minha caneta desenhe para construir nosso planeta, nossa pátria particular, nossa república popular, nossos limites planejados para nada limitar.

Preciso de um esconderijo, um castelo assombreado ou um ensolarado alçapão...

Amor, posso morar dentro do seu coração?

Um comentário:

  1. Adorei o texto... É uma casa e tanto...

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