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Não sei porque escrevo



Crônica, de Beatriz Gil.

Eu não sei porque escrevo. Aliás, sei que escrevo porque de algum modo as palavras dentro de mim não se contêm e transbordam sem dar fé e porque, semelhante a uma embriaguez profunda, me sinto aliviada depois de vomitar pensamentos para o papel. Disto eu sei.

Mas não sei porque escrevo.

Fumo muito enquanto me debruço sobre cadernos e os rabisco sem qualquer pudor. Não os poupo a letras feias e mal desenhadas, a cinza que vai caindo aqui e ali, nem a dedadas que se vão imprimindo nas folhas tornando algumas palavras pouco legíveis quando a tinta não está ainda seca.

Gosto de guardar blocos quase completamente escritos, gosto de os deixar com algumas folhas em branco no fim. É dificil colocar pontos finais, terminar coisas, dar-lhes um fim.

A possibilidade de um dia lá voltar gosto de a manter em suspenso. Raramente lá volto, é certo, mas tranquiliza-me saber que podendo, posso sempre lá regressar e brincar com o tempo como se fossem peças de Lego.

Escrever nas ultimas folhas do caderno que deixei incompleto aos quinze anos pode ser tão divertido como doloroso. Divertido quando me esqueço dos anos e me julgo ali outra vez, com quinze anos, a querer e a sentir tudo como se as horas não se tivessem precipitado em mim. Doloroso quando o discurso prometia e preconizava melhorias, quando já muito havia sido dito, mas muito mais havia por dizer... as possibilidades a serem infinitas, com quinze anos.

Brincar com o passado é uma ginástica de contorsões, de ilusões. Brincar com o passado é quase brincar ao Carnaval.

Mas não sei porque escrevo.

Posso conjecturar acerca de me sentir mais viva, de me ser fisica e emocionalmente impossivel não o fazer, posso dizer que as minhas veias ardem, que o meu coração se debate, que...

Mas ainda assim, não sei porque escrevo.

Como não sei, ou pelo menos não tenho a certeza da razão porque falo contigo, folha, digo-te que o mais provável é que escreva para morrer devagar.

E perdoa-me por te confidenciar, a ti, directo interveniente, que não tenho a certeza acerca de um sem número de coisas, mas que sei, quase sem margem para dúvidas, que seria muito, tão mais feliz, sem esta urgência em te falar. Sem este vómito constante. Sem este não saber porquê.

E eu não gosto de não saber porque faço as coisas.

*

Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Perfil, por Paula Bombas.

Um comentário:

  1. Não te preocupes porque escreves, escreve simplesmente, e deixa ao douto saber dos outros, a procura da tua pergunta sem resposta!

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