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Porto Alegre



Crônica, por Mariana Collares


Pensando no que escrever, e no meu cotidiano ato de “matear” durante as tardes, deparei-me com uma vontade de falar de Porto Alegre.

Não é um lugar paradisíaco. Tampouco um destino turístico dos mais arraigados na mente dos passeantes. Porto Alegre é um lugar que inspira, não tanto por seus “hogares”, mas sobretudo por sua gente e por seus costumes.

É um lugar de pessoas, e bastante pitorescas - por sinal - porque diferentes do resto do povo brasileiro. E não por acaso. Estamos muito próximos aos vizinhos porteños. Parecemos uma leve extensão deles porque somos uma mistura muito densa do índio com o espanhol e o português. Italianos, árabes, alemães e polacos são povos que aportaram aqui muito mais tarde. Então nos miscigenamos tardiamente com eles. Antes, misturamos em nosso sangue uma boa dose de espanholismo e portuguesismo, regada a um sabor missioneiro – o Tupi.

Temos o hábito do chimarrão, ao qual alguns ainda chamam mate. Temos a mania de nos misturarmos nas ruas para saborear a erva amarga, que passa de mão em mão enquanto o sol se põe junto ao Guaíba.

Aliás, o pôr do sol de Porto Alegre é, por si só, um cartão postal dos mais belos. Temos margens belíssimas, embora ainda sujas, se bem que bons ventos trazem obras em prol de despoluí-lo. Mesmo assim, pássaros breves sobrevoam tardes rosadas ou alaranjadas, onde um sol sempre diferente daquele do dia anterior se põe, no exato ponto em que o rio toca o céu. Por isso é lindo.

Há um café em um museu em que adoro estar, para tirar fotos dos passantes de bicicleta ou caminhando, banhados pela luz das tardes oestes.

Porto Alegre, não por acaso, é uma cidade virada ao poente. O povo fala com sotaque musical. Temos ditongos enormes. Enormes tritongos, feitos de sons que a língua portuguesa ainda nem descobriu. Abreviamos palavras e inventamos um dialeto próprio, de quem vive meio ano sob um sol escaldante e meio ano sob o frio tiritante. E nos dividimos nesse hábito de enfrentar o calor infernal e o frio abrasivo do melhor jeito que conhecemos: em grupos. O gaúcho é um povo que se une. Ao redor de uma fogueira, ao redor da roda de mate, da roda de violão. O gaúcho é guerreiro nas menores coisas e irritante ao menor contato. Mas sabe ser doce, porque tem o calor nas entranhas.

Porto Alegre, sua casa, é um lugar para conhecer com calma, caminhando devagar pelas ruas arborizadas e tecendo a história com seus grandes espaços e poucos monumentos. Então Porto Alegre se faz, não com visitas, mas com estadias prolongadas, para sentir o clima citadino, que faz com que ela ocupe um lugar tão certo e premente em meu coração.

Se um dia vierem por estes pagos, tragam consigo a calma para tragar o amargo mate das nossas almas campeiras. Tragam as estrelas para pôr no céu ocidental deste meu porto, porque o sol ofusca qualquer tentativa de estrelarmos os olhos a cada vez que se põe. Então deixamos que os estrangeiros coloquem estrelas em nosso céu noturno, porque o sol, nosso mestre, já se pôs e nos deixou órfãos de luz até o dia seguinte. E se uma tormenta se aproxima, sabemos que o vento logo a faz passar amiúde para fazê-lo retornar ao seu majestoso trono feito em água, no outro dia.

Porto Alegre é um por do sol diário.

Doce e amargo. Como sua gente.

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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
PDS em Porto Alegre, por Daniel Sebastiany.

2 comentários:

  1. Gostei, Mariana você descreve Porto Alegre com muito "carisma" Eu já estive aí num trababalho missionário e conheci pessoas maravilhosas, parabéns!

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  2. Obrigada! feliz que tenhas gostado! abraços! M.

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