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Crônica, por Mariana Collares

Às Marianas, cujas conversas inspiraram este texto.


Dizem que o sintoma do amadurecimento é a incredulidade. Mais especificamente, a perda da ingenuidade, ou da inocência.

Quando crianças, muito cedo na vida, acreditamos no fantástico. Em Papai-Noel, em fadas, em mágica. Inventamos, com a infância, o nosso mundo ideal e vivemos insertos nele, como se fosse um grande marshmallow em que pudéssemos mergulhar até a cabeça.

Então crescemos, e com a adolescência vêm as primeiras grandes desilusões, principalmente as amorosas, pois estamos nessa idade, e quase sempre, nos aventurando nesse mundo novo – o do amor-platônico, ou meramente dos hormônios-platônicos.

Assolam-nos, então, as primeiras lágrimas de desilusão. Alguns castelos roem, outros caem por completo. E nos arriscamos a construir outros tantos. Fáceis, pois somos novos nessa coisa de termos sonhos destruídos (fácil reconstruir uma casa que cai pela primeira vez... A madeira ainda é nova, normalmente as fundações ainda estão rijas, enterradas profundamente na terra forte. A base é boa e então constrói-se tudo novamente – móveis novos, cores novas. Tudo novo. Renovado).

E o tempo não perdoa. Continua passando e nos trazendo, vez ou outra, novas tempestades metafóricas. Pessoas passam e levam muito de nós consigo. Outras vêm e quase nos trazem de volta. E então passam de novo. A vida é assim pra todos, não adianta. Quanto mais vivemos, mais nos “desiludimos”, porque a vida não é o que pintamos. Nada é infalível, nem inexorável. Nossas “verdades” se transmutam noutras tantas, relativizam-se, e aprendemos com a humildade que o tempo traz, que sabemos muito menos do que achávamos noutros tempos.

Eu costumo dizer que quanto mais vivo, menos categórica fico. Mais dou o braço a torcer, menos me choco com o estapafúrdio, porque com o tempo o estapafúrdio vira hábito. Vê-se e ouve-se de tudo. Então ficamos acostumados.

Mas, ao mesmo tempo em que isso ocorre, algo muito triste chega como “kit de viagem” – descremos. E isso, creiam, com o tempo vira prática. E a prática vira hábito. E o hábito vira crônico. E então a doença.

Basta termos um raio de luz pela frente que logo dizemos, morrendo de medo da tão conhecida “perda” – “vai passar, como tudo”. E nos preparamos para ela (a tal perda) fazendo o mais fácil – não vivendo a experiência. É bem mais seguro, se bem que tão mais chato...

A felicidade vira medo. Vira pânico. Vira até monstro. Se felicidade se transmuta em infelicidade, logo, não a quero. Tão fácil... Tão comum ver isso por aí...

Eu mesma dou a mão à palmatória - canso de me ver louca de medo do inexplorado, cheia de vontade mas com uma paralisante inércia a me impedir de vivê-lo.

Um dia me dei por conta de ter dito a alguém: - não acredito mais em amor eterno. Nesse dia, a criança que há em mim agonizou. Os anjos calaram. As trombetas silenciaram e vários pássaros caíram no esquecimento. Não fui mais feliz com isso. Ao contrário, meu riso ficou mais triste. Meus olhos secaram. Minhas lágrimas não se fazem mais como antes e eu posso dizer que morri de tanto esperar morrer.

Mas para meu gozo e bem estar, tive a grande sabedoria de auscultar em minha memória o que me fez pensar assim e tive o relance: um amor partido. Que se foi. Que nunca mais voltou. Que secou. O que deixou? Alguém vivo, apesar da dor.

E se estou viva, e a vida é esse terno vir-a-ser absolutamente incógnito, quem sou eu, afinal, pra sair por aí dizendo em altos brados que não creio em nada? Ou que creio menos? Que falta de humildade é a minha que, mesmo sem saber se daqui a uma hora estarei viva, tem a coragem de dizer que essa vida terminará de um jeito ou outro? Como eu, com minha profunda ignorância do Todo, posso sinalar que não creio no que quer que seja? E se o Divino me dissesse agora: “Não creio mais em ti”, o que eu faria? “Eu existo!” – diria a ele. Mas isso não o impediria de não crer. Embora eu não deixasse de existir por isso.

E constatei que a credulidade, se não traz o paraíso, traz o brilho nos olhos. E os que o têm são mais radiantes do que a massa cinzenta da descrença. Pode ser que nunca venha, mas eu brilho, eu reluzo! Porque eu creio!

E aquela força primordial que insufla os que crêem os torna bem mais belos, mais seguros ante a vida, e os protege das agruras do porvir. Porque acreditam. E esperam. E se pautam pelo que esperam.

E embora minha maturidade possa me fazer parecer mais cinza do que de costume, eu me alegro em perceber que lá no fundo, mas nem tão fundo assim, eu ainda me emociono quando vejo um amor que dá certo, um casal que se apaixona, uma criança que nasce, uma vida que se renova. E que minha criança se alimenta dos sonhos que a vida adulta não tem coragem de dizer que sonha. E que faço deles meu horizonte olhando todos os dias aquilo que posso criar por aí, pelo simples ato dedizer.

E ouso afirmar a vocês, seres do mundo, que sim! Vejo que, afinal, ainda creio num amor possível e até eterno. Eu creio em felicidade mundana, sobre-humana e divina. Eu creio em infância tardia!

E vejo que eu torno essa crença possível porque sou fruto dela. Mesmo nos dias mais sórdidos. E se eu sou esse ser que brilha, eu creio sim que possamos ser um mar de seres radiantes, em cotidiano entrelaçamento, ao lado de uns poucos que ainda estão opacos. E que apenas estão, transitoriamente.

Ainda me abraço em um travesseiro ao qual chamo de anjo e rezo antes de dormir. E quando acordo, vejo o sol pela janela do quarto e agradeço, sinceramente, por passar férias nesta estação chamada Terra. Onde tudo é provável. Porque somos a exceção do nosso cosmo. E se existimos, mesmo sendo tão raros, é porque tudo o mais é possível.


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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Flor & Mulher, por Cristine Kelm.

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