I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Distúrbio - capítulo 1


Conto, por Valentina Silva Ferreira.


Leitores, o texto que se segue serve como degustação do meu primeiro romance, lançado em 2011 pela Editora Estronho. Os interessados em adquirir o livro deverão fazê-lo através da Livraria Estronho


Tenho 12 anos e sou a filha mais velha de uma família de quatro irmãos. Sou exageradamente bonita. Nasci num seio muito rico e moro numa deslumbrante casa de três andares, pintada de branco casca de ovo. A minha mãe tem bom gosto; foi ela quem delineou todas as características da nossa casa, desde o bibelô ao grande jardim. O jardim! É o meu local favorito.

Chamo-me Rossana e sou uma criança infeliz.




Cap. 1 - O disfarce


– Rossana, estás pronta?

– Já vou, mamã.

– Despacha-te! As tuas irmãs estão à tua espera.

Rossana desceu as escadas tentando não tropeçar pelo caminho.

– Deixa-me ver como estás.

A menina apareceu no hall de entrada vestindo uma minissaia e um top exageradamente decotado. Os saltos altos demasiado senhoriais davam-lhe um ar desajeitado e o rosto maquiado tornava-a mais velha.

– Oh, bravo, bravo! – disse a mãe em gritinhos histéricos. – Estás muito bonita!

Rossana agradeceu o elogio da mãe com um sorriso tímido e seus olhos deixaram passar um brilho triste, um pedido de socorro, como se outra pessoa estivesse presa dentro daquele corpo. Ao olhar para as irmãs que brincavam no jardim, sua mágoa cresceu. A mãe pouco se importava se elas sujavam a roupa e Rossana desejou mais uma vez não ter nascido tão bonita. Queria ser normal e brincar lá fora.

– Vá, vá, rápido! Ainda chegam atrasadas à escola.

A voz aguda da mãe afastou seus pensamentos e, pegando nas chaves de casa, fechou a porta e foi para a escola.

A escola de S. Tiago era um edifício imponente e os professores eram, na sua maioria, pessoas acessíveis. Rossana gostava de lá estar; era o único local onde era ela mesma. Não a mulher fatal em que a mãe a transformava, mas a outra – aquela que estava presa dentro do corpo, a que sentia uma ânsia de ser criança. Mal chegava, trancava-se na velha casa de banho e abria sua sacola, tirando um par de jeans, uma camisola e umas sapatilhas. A velocidade feroz com que se despia contrastava com a calma feliz em que vestia a roupa de criança. Guardava a roupa ridícula e saía do cubículo. Agora sim podia olhar-se ao espelho. E sorria, sorria tanto que quem visse era capaz de jurar que a miúda era doida. Abria a torneira e esfregava freneticamente a cara até o último vestígio de pintura desaparecer com a água. Finalmente, a sua máscara insuportável desaparecia.

Ninguém entendia o porquê da rapariga chegar à escola envergando uma toilette pouco própria para sua idade e muito menos se atreviam a perguntar a razão pela qual resolvia mudar de vestuário. Nas aulas, Rossana era uma menina vivaz, sempre pronta a participar nos temas e era muito acarinhada pelos colegas e professores. Suas excelentes notas e seu comportamento exemplar eram razão suficiente para que achassem que não havia necessidade de questionar sobre aquela estranha atitude. Provavelmente tinha um namorado mais velho que visitava antes de ir para a escola e vestia-se assim com o intuito de surpreendê-lo.

*


Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
boneca, por Diana Nunes.

Um comentário:

  1. Lindo conto Valentina!

    Uma triste realidade que você retratou com doçura!

    Lindo mesmo!

    Beijos

    Leila

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