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Ela (versão II)




Crônica, por Giovana Damaceno


Tornou-se apenas saudade. Uma leve – ou breve – fumaça, bruma ou névoa, que a esconde nas paragens de lá. Ela que embalou meu sono, vigiou minhas enfermidades, chorou comigo minhas dores, dor me deixou. E só de dor vivo, empurro, toco a vida para a frente. E por ela, em homenagem a ela, por força dela, me esforço para realizar o que tanto ela queria ver, e viver comigo.

Mas o que dói mesmo é a solidão. O abandono em que mergulhei. Orfandade de irmã, de mãe-irmã. Conflito de sensações que fazem nós apertados no fundo da alma. É ela – e a lembrança dela – que me impulsiona; e é a falta dela que me empata a vida. É o não ter com quem trocar, compartilhar, desabafar, torpedear. Oi, taí? Não está mais.

Ouço sua voz em sonho. O som familiar soa no fundo do cérebro; não vem de fora. Chama-me “Giovana!”. Numas vezes olho e reencontro; noutras fico no vento, procuro. Lembro da brisa do dia em que ela se foi; vejo, como vi naquela tarde, os cachos em agito, de longe, no alto, diante de mim, me seguindo. E a voz, tão calorosa voz, tão inesquecível voz, está aqui dentro.

Ela. Tantas outras palavras já escritas sobre ela. Tanto sentimento exposto em linhas e linhas para ela. E de novo eu, aqui, me rasgando em saudades dela. Para sempre.

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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
sei que já viste o coração das coisas, por Sónia Cristina Carvalho.

Um comentário:

  1. profundo e doído, emoção que salta aos olhos e ao coração!

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