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Encontro casual




- Olá, como está?
- Eu vou bem e você?
- Tudo bem, na medida do possível.
- Soube que se casou.
- Verdade. Ia te convidar, mas...
- Não precisa se desculpar, por favor.
- É, tem razão.
- Você sabe que eu não poderia ir mesmo.
- (...)
- Bem e o casamento... está feliz?
- Acho que sim... Sim. Estou feliz.
- Que bom!
- Quer tomar um café ou algo assim comigo? Tem um barzinho logo ali.
- Não há problema para você? Digo...
- Claro que não, vamos.

Não esperava vê-lo assim, no meio da rua. Cara a cara comigo. Nem deu tempo de abaixar os olhos e passar direto. Seus olhos negros já me fitavam fixamente. Ele sempre foi assim. Nunca fugiu de um olhar.  Aqueles olhos negros...negros como a noite. Misteriosos como um poço escuro. Devia saber que mergulhar nesses olhos seria a pior coisa que eu poderia ter feito, mas eles eram  tão sedutores; profundos demais para serem ignorados. Me fisgaram. Me prenderam e neles me perdi.
Agora estou aqui, de frente para ele, nesse bar, amistosamente. Tudo parecendo tão casual, tão normal de acontecer quando duas pessoas que se conhecem se encontram. Tanto tempo havia se passado e para mim parecia que havia sido ontem que aquele homem saiu da minha vida.

Chega o garçon.

- O que você quer beber? - ele me pergunta.
- Um capuccino vai bem. - respondo olhando em seus olhos.
- Algum acompanhamento? - gentilmente pergunta.
- Um strudel de macã. - digo sorrindo.
- Para mim o mesmo, obrigada - diz dirigindo-se ao garçon.

Pedimos o mesmo que costumávamos pedir quando íamos à um café. Interessante. Será que ele se lembrou?

- Capuccino ainda é mossa bebida predileta, pelo que vejo - disse com um ar de intimidade.
- E strudel também ainda é o acompanhamento - respondi com um sorriso sem graça.
- Pois é... há preferências que não se alteram, nem com o tempo.... - flou reticente, fitando meus olhos.

Não suportei e baixei a vista. Era demais... O que ele queria. Me magoar... de novo. Estava casado. Fez sua opção e agora estava querendo me seduzir?
Seus olhos se voltavam para os meus que não mais sabiam aonde pousar. Comecei a mecher nas mãos, nos cabelos, a olhar para os lados... mal sinal, estava me sentindo desconfortável. Eram tantas meias palavras, olhares fugidios, mão perdidas no vazio. Podia quase ouvir os batimentos do meu coração. Será que ele percebia minha angústia? Será que sentia que eu ainda o amava?

- Mas você parece bem... está muito bonita. Aliás, sempre foi.

 Preferi me calar...

- Desculpe, acho que estou te deixando tensa. Pensei que pudéssemos conversar um pouco e tudo ficaria bem
- Não se preocupe. Não há nada na vida que não se possa superar.
- Talvez... não sei bem...

Aquilo já estava me irritando. Ele não tinha esse direito e eu tinha que deixar isso claro. Iria acabar com esse joguinho idiota agora mesmo. Mas com classe. Ele entenderia.

- Olha, foi bom termos nos reencontrado. Saber  que está bem e satisfeito com sua nova vida. Agora, me desculpe, mas tenho um compromisso e preciso ir.
- Mas já, tem certeza?
- Perfeitamente. Por favor, peça a conta.

Contra a firmeza de minhas palavras, ele não teve saída. Chamou o garçom. Caminhamos até a calçada. Trocamos um beijo no rosto. Ele me fitoudaquele jeito... será que um  dia esqueceria aqueles olhos?

- Obrigada pelo lanche.
- Obrigada pela companhia. Seja feliz!

Fui andando com passos apressados pela calçada, me distanciando cada vez mais da quele homeme e sentindo seus olhos cravados em minhas costas, queimando minha pele.
Como poderei esquecer esses olhos?


Ianê Mello


*


Créditos de imagem: Cartier Bresson

3 comentários:

  1. Oi Ianê,

    Por um minuto a esperança de que tudo poderia ser como antes e tão rapidamente a descoberta de que algo se perdera para sempre.

    Linda crônica!

    Beijos

    Leila

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  2. Olá Ianê...
    Bela crônica, mas isso já fez parte da minha vida um dia, entre o colégio e a faculdade, a vida é assim, feita de escolhas e ele escolheu.
    Um abraço para você e Parabéns!!

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  3. Um lindo texto!

    Triste e real.

    Beijos

    Leila

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