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Literatura e Quadrinhos na obra de Neil Gaiman

Neil Gaiman


Artigo para a seção ENTRE, por Fernando Pita.

            Ao longo de sua trajetória, a Literatura sempre buscou construir elos com as demais Artes. Nesse contexto, um dos relacionamentos mais prolíficos da Literatura tem sido com a Pintura, tanto por sua intensidade quanto pela “descendência”, isto é, a variedade de novas manifestações artísticas daí originadas. Fotografia, Cinema e Vídeo podem muito bem ser aí arrolados, uma vez que herdaram toda sua composição de imagem da Pintura, ao tempo em que apresentam uma narratividade que é, em última análise, literária, embora distintos sejam os suportes em que suas obras são veiculadas: a fotografia impressa ou o filme, seja para a tela grande, no caso do Cinema, ou a televisão, no caso do Vídeo.

        Há, porém, um membro da família que, normalmente desconsiderado ao tratar-se do assunto, apresenta no entanto uma produção igualmente volumosa e de alto nível qualitativo: as Histórias em Quadrinhos. Narrando através da conjugação de imagens e diálogos, rapidamente se reconhecem os Quadrinhos como o ancestral imediato do Cinema; desconsiderando-se contudo suas relações com a Literatura.



            Essas relações vão desde a adaptação de obras literárias dos mais diversos gêneros, e até mesmo de obras de outros cunhos. Ademais, determinados autores de quadrinhos empenharam-se em construir seus argumentos dos limites mais amplos de literariedade, usando procedimentos próprios da Literatura.

Neil Gaiman
            Tal é o caso de Neil Gaiman (1960), argumentista inglês que se destacou no universo dos Quadrinhos com a publicação da série Sandman ao longo dos anos 80: nas revistas dessa série são frequentes as alusões a autores literários (Chesterton, Marlowe, Mark Twain, Marco Polo e William Shakespeare são personagens frequentes), e também do universo da música, pois os rostos de suas personagens são normalmente inspirados em artistas como Mick Jagger, Tori Amos, Siouxsie Sioux, David Bowie, entre outros. Claro, as obras desses músicos e escritores - principalmente as de Shakespeare, cujas Sonho de uma noite de Verão e A Tempestade são apresentadas praticamente na íntegra - além da de inúmeros outros, são referência constante dos textos de Sandman.

            E é justamente a adaptação de Sonho de uma noite de verão que nos permite analisar com mais clareza as relações entre Quadrinhos e Literatura.

            O argumento é conhecido: um escritor sem talento (William Shakespeare) faz um pacto com uma entidade (Morpheus, antropomorfização do Sonho) e, em troca de seu talento, está obrigado a encenar duas peças de autoria daquele. A primeira destas é justamente Sonho de uma Noite de Verão, representada diante das próprias personagens que inspiraram a peça. Temos assim os “verdadeiros” Oberon e Titânia, além de todos os demais habitantes do Reino das Fadas, assistindo à representação de sua própria história. Nesse caso, a referencialidade que se estabelece é gritante: se o argumento é inspirado no de Fausto, a ideia de representação é completamente intertextual, pois os quadrinhos de Gaiman não só dialogam com o texto de Shakespeare, mas dele necessitam para uma compreensão mais profunda da narrativa apresentada. Num procedimento que é recorrente em Gaiman, os textos citados muitas vezes são peças-chave para a narrativa quadrinhística, possibilitando diversos níveis de leitura de suas histórias. Evidentemente, o diálogo que aí se estabelece cria uma teia de referencialidades que não apenas enriquece o texto mas que apresenta o leitor a obras de outro calibre. (Confesso que só li Chesterton depois de ter tomado conhecimento de sua existência através dos quadrinhos de Sandman.)

             Também a alinearidade narrativa se faz presente, assim como uma extrema concisão dos diálogos - que muitas vezes encerram um ponto de vista filosófico, como se vê no quadro ao lado, parte de um diálogo entre Morpheus e Titânia:

            Essa extrema concisão, aliás, revelou-se um problema nos romances publicados por Gaiman posteriormente à série Sandman: cremos que o autor não conseguiu adaptar-se inteiramente à “verborragia” exigida pelo novo formato.

            Há ainda diálogos que chegam a apresentar uma definição de ficção e mesmo da Literatura, como se vê em outro momento da mesma cena:

            Não poderíamos aqui, embora seja uma ideia assaz tentadora, esgotar uma análise da obra de Neil Gaiman, mas podemos afirmar que, ao usar os procedimentos da prática escritural contemporânea, Neil Gaiman - juntamente com Alan Moore e Frank Miller, apenas para ficar no contexto anglo-saxão - elevou o padrão médio do texto dos Quadrinhos, alcançando um público leitor de nível cultural mais elevado, sem distanciar-se do público adolescente geralmente associado aos quadrinhos. Aliás, sobre esse assunto, vale recordar que em 2004 a organização da FLIP convidou Gaiman para lançar um de seus romances no evento, em Paraty. (O que a organização não contava é a fala de Gaiman atrairia cerca de 5000 pessoas à cidade, com direito a manifestações de fãs dignas de qualquer estrela do rock ).

            Como consequência disso, opera-se, a partir dos anos 80, uma guinada radical no gênero: inspirados em seus trabalhos, surge toda uma nova vertente da produção de quadrinhos, francamente próxima da Literatura – e que hoje até se distancia daqueles procedimentos utilizados por Gaiman, buscando outros recursos para transmitir literariedade - e que seria aproveitada pelo cinema hollywoodiano, que tem hoje grande parte de sua produção baseada na adaptação de Quadrinhos.

Até a próxima!.

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