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Sovas e outros ajustes de contas


Crônica, por Beatriz Gil.

Éramos uns gaiatos e já nos dávamos como agora, sempre às turras e às massas, mas dávamos a coisa por resolvida sempre com um aperto de mão e uma snifadela de resignação.

Ainda te lembras de quando andaram a dizer que eu andava a arrastar a asa à tua irmã Helena?

Deste-me a maior sova da minha vida e ainda hoje se me estala a cana do nariz se me assoo com mais força.

Foste sacana, é certo. Apareceste-me por trás e deste-me um soco que até se me fez estremecer os ossos.

Fiquei estendido no chão em três tempos, aturdido e sem perceber nada daquilo. Ainda te arreei umas murraças bem dadas mas tu, que sempre foste mais maciço e forte que eu, não me deste abébias nem descanso.

"Com a minha irmã é que não, cabrão!"

e eu fiquei ainda mais confuso. A tua irmã sempre foi gira que se fartava mas nunca me ligou pevas e, da minha parte, como sabias, andava aos caídos pelos montes por causa da Luísa.

Não foi uma sova merecida, mas para mim, e depois da poeira ter assentado e o nariz ter deixado de sangrar, aumentaste um sem número de pontos na minha consideração. Um homem que defenda daquela forma uma mulher, seja irmã, amiga ou amante, só pode ter os tomates bem postos no sítio, já para não falar de um coração de cavalo.

Acabaste por dar o dito por não dito porque a Luísa, que ficou tão fascinada com a tua demonstração de valentia, não descansou enquanto não se enrolou nos teus braços, enrolanço que, diga-se de passagem, dura até hoje.

Deu-me gozo quando a Helena se veio sentar ao pé de mim, no calhau que usávamos como poste de baliza no descampado junto à Sé, e me disse que tu eras um filho da mãe, por me teres rebentado o nariz e por me teres roubado a namorada. Pespegou-me com um beijo na bochecha que me valeu três meses de romance afogueado com ela e claro, os mesmos três meses sem te ver os dentes.

Menos mal que não retaliaste. Se o tivesses feito eu mandava a tua irmã passear, ainda hoje acredito que por mulher nenhuma vale a pena perder um grande amigo.

Por isso é que te perdoei quando me enviaste o convite para o teu casamento com a Luísa e, babadíssimo de satisfação, fui teu padrinho.

A coisa com a tua irmã passou rápido, estou convencido de que foi, para ambas as partes, mais um ajuste de contas e emancipação, do que qualquer outra coisa que se assemelhe levemente a amor.

Olha, Carlos, fazes-me falta. Vê se voltas rápido ao mundo dos vivos, senão já sabes que tenho que ir eu a esse lado.

E garanto-te, meu cabrão, que isso te ia valer uma sova valente (não imaginas o maciço e forte que me pus no último ano e meio!).

*

Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Briga, por Nilo José Borges Coimbra.

Um comentário:

  1. Olá,

    adorei a crônica. Incrível!

    Volto pra te ler mais...

    Abraços

    Leila

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