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Berkeley



Crônica, por Mariana Collares

A primeira coisa que chama a atenção, quando entramos na cidade de Berkeley, é a atmosfera “low profile” que perambula por todos os lugares, se imiscui pelo jeito de ser e estar das pessoas que aqui vivem e passam, e se instala em nossa aura de uma forma quase que instantânea no exato momento em que saímos do metrô e ingressamos na ensolarada Shattuck avenue.

Não sei se por ser o berço do movimento “hippie”, ou por ser conhecida como a cidade onde fumar maconha ao ar livre não é considerado crime, mas o fato (que passa a ser notório) é: Berkeley é o cenário de uma universidade que lhe dá a tônica e o motivo, e por isso tudo aqui tem um gosto de “liberdade”. E a tal liberdade da qual falo é a mais metafórica possível sem, no entanto, perder o senso literal de que precisa para ser considerada efetivamente “livre”. Estou sendo confusa? Desculpem. É que desde que cheguei, tento encontrar as palavras certas para descrever o que Berkeley tem de melhor e, sinceramente, não tem sido tarefa fácil. Porque é uma cidade tão bela e limpa e organizada e feliz e libertária e interessante e culta que fica realmente complicado colocar isso tudo e um tanto mais nos exíguos espaços do que a telinha permite.

Uma coisa que impressionou e adorei foi: todo mundo aqui tem um jeito de ser tão individual que se vocês quiserem sair pra rua de botas “Ugg” e chapéu de urso, vocês podem e tenham certeza de que não irão chamar a atenção de mais ninguém. Se quiserem sentar num parque e dormir às duas da tarde, vocês também poderão, e estejam certos de que nenhuma pessoa irá perturbá-los. Mais, não se importem se ninguém entender a língua que vocês estão falando: Berkeley é cosmopolita o suficiente para conviver com todas e propiciar a integração, assim como com todas as culturas e crenças (nunca vi tantas igrejas e credos convivendo, nem tantos restaurantes com comidas típicas diferentes num mesmo espaço geográfico).

Aqui o tempo parece ter parado nos anos 60, quando o movimento hippie dava “spins” naquele capitalismo que saía do berço, e vejo hoje antigos “hippongas” coexistindo ao lado de gente que nem sabe o que é isso, porque nasceu anos-luz depois do movimento ter terminado, mas que conserva um mesmo jeito de existir: pensando-se e deixando-se viver.

A Universidade de Berkeley não é considerada uma das melhores dos EUA por acaso, e seus alunos (vindos de todos os lugares do planeta) conservam o que de melhor há num aluno de universidade: a curiosidade, a vontade de conhecer culturas e integrar-se nelas (acreditam que há em Berkeley turmas inteiras que estudam cultura latino-americana e falam o português, assim como professores especialíssimos que amam e estudam nosso jeito de existir e desenvolver?). Sim, o Brasil é estudado, compreendido e valorizado como nós, brasileiros, talvez nem ousemos saber que somos.

Conheci, a propósito, uma professora interessantíssima, dotada de uma sensibilidade ímpar para compreender verdadeiramente nossa cultura e costumes, e que leciona no Departamento de Espanhol e Português da Universidade. Candace Slater é uma mulher simpática, dona dos olhos azuis mais sinceros que conheci, e que fez da língua portuguesa e do estudo do Brasil a sua inspiração e paixão de viver. Além de conhecer como poucos nosso país (viveu anos viajando pelo Brasil e estudando a literatura de cordel), leva esta paixão tão a sério que inspira literalmente seus alunos a quererem matricular-se em cursos de português e estudar nossa literatura com o afinco que gostaria que nós tivéssemos.

Hoje, numa das aulas de que participei, estivemos estudando Clarice Lispector. Detalhe: não estava numa turma de literatura, mas dentre alunos de diversos cursos que fazem do português e do estudo das nossas letras matéria seletiva dentre tantas outras, igualmente interessantes. Não preciso dizer que me emocionei.

Bom, e se vocês ainda não entenderam do que falo, não percam tempo: entrem agora no site da universidade e vejam as oportunidades de estudos para brasileiros. Vocês ficarão impressionados com aquilo que Berkeley proporciona em termos de intercâmbio estudantil.

De minha parte, restará uma enorme saudade quando tiver que voltar ao Brasil, mas tenho certeza de que esta, como todas as outras viagens de minha vida, deixará em mim suas raízes de forma a me fazer compreender melhor em que mundo habito e de que forma posso interagir com ele, e da melhor forma. Berkeley, sem dúvida, me deu a noção da importância do meu lugar no mundo. E o que impressiona, sobremaneira, é que essa noção só tive quando vi meu mundo do lado de fora do meu aquário. E daqui, do ladinho do Pacífico, tenham certeza: ele ficou pequenininho e absolutamente imprescindível.


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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Ponte do Portão Dourado..., por R. Barroso.

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