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Mauro & Maurício




Conto, por Márcio Rufino.


O antigo relógio de parede da sala de estar já batia as doze badaladas da meia-noite e nada de Barbara chegar com o novo namorado. O pai Mauro já se encontrava aflito. “O que essa menina está pensando? Ela me paga quando chegar!” Pensava ele em seu andar atarantado pra lá e pra cá. Urgente. Agoniado. Desesperado.

Tocou a campainha e Mauro foi atender ensaiando o discurso de descompostura. Ao abrir a porta encontrou a filha acompanhada de um belo rapaz. Séria. Decidida. Tragicamente decidida. O rapaz constrangedoramente simpático.

- Oi pai! Esse aqui é o Fábio, meu namorado!

- Isso são horas? Perguntou Mauro fatalista.

- Eu posso explicar, seu Mauro. Posso entrar? – Fábio perguntava, argumentava amendrontado, mas firme.

Mauro permitiu. Bom e generoso como era, não era homem de extravasar sua raiva sem antes ouvir as justificativas do objeto de sua ira. Depois de entrar, os três se sentaram. Barbara e Fàbio falaram sobre o culto da igreja. Sobre a esticadinha até a pizzaria mais próxima. Sobre o bate-papo que mascarava o amasso e a pegação. Era a primeira vez que Mauro via Fábio em sua vida e o rapaz lhe lembrava algo ou alguém que ele não sabia e no fundo nem queria saber o que nem quem, pois pressentia que era uma coisa muito dolorosa. Em seu papel de pai severo que quer saber com quem a filha anda, ousou perguntar-lhe o sobrenome.

- Vezzani! – Respondeu Fábio solícito. – Fábio Vezzani. Sou filho de Maurício Vezzani. Ele é um cirurgião super famoso. Conhece?

Mauro preferiria morrer a ter que escutar aquilo. Aquelas palavras eram várias facas a lhe perfurar os tímpanos e o coração; e invadir o os olhos e a alma sem dó nem piedade.

- Já ouvi falar por alto! – Sua boca respondia pesada e mórbida como a boca de um zumbi.

Barbara tomou a palavra:

-Já tá tarde e eu vou levar o Fábio até o portão, pai. Até daqui a pouquinho.

Mauro não respondia. Seus olhos estavam tristes, distantes, imprecisos, longíquos. Quando Barbara fechou a porta, amesma foi arrombada pelo passado dentro das lembranças do dono da casa em imagens cruéis e torturadoras. Sim. O nome Maurício Vezzani era um nome que lhe soava aos ouvidos com a mesma força apaixonadamente malígna de uma ameaça alienígena.

Se viu aos treze anos na quadra de esportes da escola. Era ótimo no handebol e fazia muito sucesso com as meninas, mas era fiel à sua namoradinha Raquel da mesma idade – pois a mulher sempre defende o homem de si mesmo nos mistérios nefastos da vida. Foi com os amigos pegar a bola que já estava reservada para eles. Mas a turma do primeiro ano do segundo grau já havia pegado a bola. Eles que eram do sétimo ano ginasial foram tomar satisfação com o líder da turma. Quem tinha que estar a frente era o líder Mauro. Chegaram na quadra e o líder do grupo que estava sobre o domínio da bola estava de costas dando as devidas instruções ao time. Bastou Mauro tocar em seu ombro para ele se voltar bem lentamente. Perguntou-lhe o nome antes de reivindicar a bola.

- Me chamo Maurício Vezzani.

Sim. Era a primeira vez que Mauro e Maurício estavam frente a frente. Mauro ficou pertubado com os olhos de Maurício. Olhos de quem era embriagado pela vida. E melifluamente se sentiu vampirizado. Maurício lhe propôs uma partida. Seus times jogariam um contra o outro. Partida feita. Jogo empatado. Zero a zero.

- Vamos jogar um vídeo-game lá em casa? – Maurício era pertinente em seu convite a Mauro. Meus pais estão viajando. Não tem ninguém pra encher o saco.

Mauro sabia que ao aceitar esses e outros convites jamais seria o mesmo; mas quando o clamor dos sentidos grita na veia, ele impele e incita algumas pessoas a fazer o emocional e não o convencional. Aceitou estes e outros convites. Quando chegavam ambos sabiam que não existiria vídeo-game. Existiria sim: o desejo pagão de dois jovens da antigüidade; o amor profano de dois sacerdotes de um deus da colheita; a explosão do gozo maldito; a chuva de sêmem a inundar a cama, as paredes e o chão do quarto de um adolescente; e finalmente, a paz clandestina dos amantes undergrounds.

E foi sendo sempre assim por mais ou menos dez anos. Até que a mãe de Maurício, dona Irma, descobriu tudo. No seu semblante tranqüilo e carismático de uma aparente resignação, fingiu aceitar em sua paz cristã de mulher religiosa. Mas ao se descobrir traída pelo marido, fez questão de visitar a amante do companheiro e lhe intimar:

- Você vai me ajudar a acabar com uma certa palhaçada!

A amante mudou de papel. Foi incubida de abandonar o pai e seduzir o filho. Em seu período fértil foi apresentada a Maurício. Bela e sensual como era não foi difícil levar o jovem para a cama. Engravidou.

No terceiro mês de gravidez foi junto com dona Irma fazer uma visita a Mauro. A mãe de Maurício tomou a palavra:

- Está vendo esta moça ao meu lado, Mauro? Ela está grávida do meu filho Maurício. Agora sim. Meu filho pode ser todo seu; pois por mais que vocês se gostem, jamais terão esse prazer de ver os traços de vocês dois correndo, pulando, rindo, chorando, crescendo em um ser. Jamais vão ver a continuação disso aí que vocês chamam de amor pulsando na vida de uma pessoa.

Mauro não precisava estar passando por aquilo. Sabia que seu relacionamento com Maurício não seria eterno e nem queria que o fosse. Sabia que Maurício gostava de meninas também e sempre respeitou, pois ele também não as ignorava por completo. Como toda coisa que não é provocada e sim acontecida, não deveria haver acusações, nem condenações , nem punições. Não merecia sentir aquela dor ao ter a gravidez daquela moça que nunca havia visto antes jogada em sua cara. Não merecia descobrir de forma assim tão violenta que o caso entre ele e Maurício era mais forte do que ele pensava; e por isso incomodava.

Aquelas palavras além de machucar o enlouqueceram com perversa doçura. Se sentiu despencando em um abismo escuro e fétido que o destituía de sua identidade. Enchendo-se de vergonha e culpa, nunca mais quis ver Maurício em sua frente. Passou a se vestir de mulher. Não tomava mais banho. Falava sozinho pelas ruas. Se alimentava das oferendas das encruzilhadas. Se feria propositalemnte com gilete. Mas Raquel, a antiga namorada, voltou a cruzar seu caminho; e apaixonada estendeu-lhe a mão – curando sua alma machucada. Levou-o para a igreja e lá se casaram. Raquel engravidou e, doente, morreu do parto da filhinha Barbara – que nasceu linda, forte, saudável. Mauro criou sozinho a filha sendo pai e mãe; melhor amigo e professor; psicólogo e confidente. Barbara era uma luz em sua vida e sua existência lhe dava um novo e maravilhoso significado.

Agora estava ali naquela sala, olhando para aquela porta restaurada pelo memos passado que lhe trazia de volta ao presente.

- Ele já foi! – Disse Barbara entrando receosa.

Mauro foi incisivo:

- Não quero que você veja este rapaz novamente.

- Eu tô grávida! – Barbara respondia com uma gota de lágrima a lhe cair do olho esquerdo.

- Sua louca! – Mauro gritou desferindo-lhe uma sonora bofetada.

Barbara correu a se trancar no quarto, se debulhando entre gritos e lágrimas. Nunca o pai havia lhe encostado um dedo sequer. Sempre fora o mais compreensivo, carinhoso e compassivo nas mais sérias travessuras e peripécias da filha. A moça sofria. Conheceu Fábio três anos antes na festinha da igreja. Depois se descobriram matriculados na mesma escola durante uma partida de handebol meninos versus meninas. Na festinha da escola deram o primeiro beijo, passando a namorar escondido logo em seguida. O período de namoro às escondidas foi delicioso. Aquele mundo amoroso era só dos dois. Nenhum parente, nenhum amigo a pertubar-lhes a paz secreta dos amantes. Mas tudo cresce a tal ponto de se tornar insuportável. É quando entra o sexo. Desmaiou numa aula de Educação Física. Na hora de pegar o resultado com o médico quis desaparecer. Ainda nem conhecia a família de Fábio. Já estava no segundo mês de gravidez e apesar de não esperar uma reação tão violenta do pai, já pressentia que ele não gostaria nada nada daquilo. O único fato que lhe salvava de uma possível tentativa de suicídio era a alegre surpresa de ter visto nos olhos do namorado a felicidade e ternura em se saber futuro papai, apesar de tão jovem. Se sentia fortalecida.

Fábio contou tudo para sua melhor amiga confidente, a avó dona Irma. A velha senhora ficou radiante em se saber futura bisavó. Ainda não conhecia a moça, nem sua família, mas já amava a todos por ajudarem a aumentar seu clã. Sua prole se perpetuava de forma sublime. “E só em imaginar que aquele veadinho sonso e nojento do Mauro quase destruiu isso tudo ao seduzir o meu Mauricinho”. Pensava ela em seus botões de seda. “ Mas graças à Deus aquele lá já se foi. Deve ter morrido de aids a uma altura dessas”.

Fábio levou Barbara para morar com ele no casarão dos Vezzani. Mauro não esboçou nenhuma reação. Apático, impotente deixou a filha ir com o pai do filho que esperava feliz, amendrontada, tensa, esperançosa. Em seu sofrimento de avô que não estava preparado para aquele neto, ele ruminava medos apreensões, recalques e solidões de uma vida toda de fuga de si mesmo. Sabia que jamais poderia matar o passado, mas poderia sufocá-lo como fazia desde a morte de Raquel e do nascimento de Barbara; podia soterra-lo nas preces que entoava aos gritos e nas canções religiosas que ouvia até o último volume do rádio, incomodando toda a vizinhança cada vez que se lembrava de Maurício. Agora, sabendo que sua filha abrigava em seu ventre um neto que era seu e de Maurício, não suportava o fato de saber que Barbara, antes sua tábua de salvação, agora o obrigava a andar sobre o fogo, a água e o ar – pois ela não pariria apenas um bebê. Pariria também o gosto do sexo de Maurício em sua boca, a humilhação de dona Irma, sua própria loucura. Ele usava sua fé para fugir do passado, mas aquele neto era sua fé, seu passado e seu presente. E para conseguir ama-lo no futuroao invés de sufocar, teria que manter sua velha paixão acesa. Nem que fosse em outro patamar. Em outro prisma. Em outra vertente.

Seis meses se passaram. Era chegada a hora de Barbara dar a luz. Foi sentindo as contrações, cercada pelos mimos de Fábio, dona Irma e do sogro Maurício. Este faria o parto. Estava imensamente feliz com a chegada do netinho. Sim. Agora sim. Sua vida teria sentido. Teve vontade de morrer quando Mauro o expulsou de sua vida. Tinha sido embebedado pela mulher que depois de casados ambos um com o outro, descobriu ser ex-amante de seu pai. Após a confirmação do teste de DNA de que Fábio era realmente seu filho, conseguiu amá-lo sem culpas, nem acusações. Mas matou a mulher aos poucos e involuntariamente; quando ela já apaixonada pelo marido teve que suportar seu desprezo, sua frieza, suas traições. As vezes em que ele, bêbado, a amava pelas costas balbuciando baixinho e inconsciente o nome de Mauro. O câncer que a assassinou foi para ela a grande solução.

Quando soube da loucura de Mauro, Maurício quis vê-lo; mas dominado, acuado pelas ameaças da mãe de coagir o pai a deserdá-lo, desistiu. Triste, melancólico e solitário viveu somente para seu filho e sua profissão. Se perdeu e se achou em saunas, banheiros públicos e cines pornôs nos braços de jovens rapazes; na esperança de reencontrar neles pelo menos um pouco de Mauro ou de sí próprio, de sua juventude.

Nasceu um lindo bebê. Amado, esperado, forte.

- O seu pai não irá vir conhecer o neto, minha filha? – Perguntava dona Irma para Barbara.

A jovem abaixava os olhos desamparados de saudades do pai.

Depois de deixar o bebê no colo da mãe por alguns longos minutos, Maurício pegou o neto no colo. A porta do quarto se abriu e nele entrou um taciturno senhor de cabeça baixa. Todos se sobressaltaram. O senhor levantou a testa, depois os olhos, depois o nariz, depois a boca, depois o queixo, depois o pescoço. Até sua cabeça inteira ficar ereta.

- Pai! – Disse sorrindo uma emocionada Barbara.

Dona Irma entrou em estado de choque. Totalmente petrificada, não podia acreditar ser aquilo verdade. Reconheceria aquele rosto até no inferno. Seu bisneto poderia ser neto de qualquer outro infeliz menos daquele degenerado. Depois de tudo que ela fez agora teria que conviver com aquilo. Aquele bisneto a humilharia para o resto da vida. Mas o que puxava seu tapete, também a fazia refletir. Não era má. Muito menos uma bruxa de contos de fada. Apenas precisava de sua perpetuação para continuar tendo fé na vida. Maurício era seu único filho e Mauro era uma ameaça. Por amor às suas certezas, destruiu o que acreditava ser errado. Mas ao ter que engolir o fato de ver Maurício e Mauro avôs de seu bisneto descobriu que há um mistério muito maior que suas próprias certezes; onde o certo e o errado perdem todo o sentido. E era esse mistério que fazia ser aquele bisneto a fé na vida, mas também o medo da morte. Ser a esperança, mas também sua maior desgraça. Descobria, enfim, que o amor não se define, não se justifica, não se classifica. Ele é e pronto. E ponto final.

Extremamente fragilizada perante a realidade que se despia em sua frente, pôs-se a chorar copiosamente.

- Vim conhecer meu neto! – Disse Mauro em tom de redenção.

Maurício entre um sorriso e uma lágrima lhe estendia o neto. Mauro olhou em seus olhos. Os mesmos olhos outrora embriagados, agora pareciam dolorosamente sóbrios. Mas o jogo agora era um a zero. Quem vencia? Nenhum dos dois sabia. Talvez o amor. Talvez a vida. Nada mais importava. Nada mais existia. Apenas aquele neto era uma doce realidade. Uma realidade que os religava; que os recomungava para o futuro. Um pedaço dos dois misturados, cujos traços correria, pularia, riria, choraria num só ser. Pulsaria na vida de uma pessoa.



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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Dois homens e meio, por Valter Matos.

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