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Um Rio



Crônica, por Mariana Collares

Então o Rio se fez diante dos meus olhos. A Baía de Guanabara toda pra mim, me olhando da janela do quarto de dormir. Já do avião dava para ver a beleza das luzes acesas ao entardecer, espalhando-se por todos os morros, pela beira das praias, ao redor da lagoa, por tudo. Chegamos quando o sol se punha. Queria ver a minha cara olhando para o sol de Copacabana, para as orlas belíssimas, para o mar verde-azul com pontinhas brancas, para o monte de estrangeiros falando línguas diferentes e todo o mundo se entendendo, trocando informações e protetores solares. Queria poder absorver tudo o que pudesse da tranqüilidade do Leblon, das famílias inteiras andando de bicicleta, andando de patins, skate, monociclos e tudo o que tem rodas embaixo dos pés. Queria poder entoar a canção do mar batendo na praia, e fotografar com os olhos, pra grudar na retina, o contorno do morro dois irmãos e o Cristo ao longe. Queria colar na sola dos pés todo o samba que toca na Lapa, pelos casarões antigos reformados e transformados em cenários de um Rio que não é ontem, é hoje e será sempre, ainda que a maldade humana e todos os problemas sociais insistam em querer transformá-lo num campo de guerra. O Rio é e sempre será eterno. Uma síntese perfeita entre a harmonia da natureza e do fator humano, da beleza e da poesia, do horror e do medo. Mas medo não tive. Porque o Rio tem o dom de disfarçar a dor e a pobreza em meio à natureza dos montes, transformando em telas de cinema o desgaste social que quase despenca diante dos nossos olhos. E suscita aplausos emocionados diante da constatação geral de sabê-lo por um fio. O mundo que conhecemos, e que é tão lindo e perfeito e que emociona tanto. Ipanema continua criando garotas, molecas, meninas e todo o sabor do feminino a balançar com as bandeiras e as cangas. A vegetação se espalha pelas calçadas, dando um tom de floresta tropical às ruas antigas e ainda calmas, apesar do trânsito e de todos os carros... O chinelo de dedos ainda é o calçado oficial do Rio e a bermuda o traje de passeio por excelência. Então o Rio tem sabor de descanso. Ao menos pra mim, que estou de passagem. A vida agitada se rende ao balanço do mar, isso é certo. Porque sempre há a hora em que o carioca pára diante do horizonte e respira. Ao menos uma vez por dia, seja de manhã, seja à noite. Seja na hora sagrada da cerveja gelada, ou da água de côco, do exercício diário ou da contemplação introspectiva. A vida, então, aqui, tem um jeito de sono. Um misto de absurdo e de real, de música e barulho. É... o Rio, se não fosse cidade, seria religião, ou filosofia. Por isso, após um dia inteiro absorvendo o seu encanto, eu rezo baixinho, diante do mar, para agradecer a grande oportunidade de vivê-lo tanto e intensamente. E agora dei pra inventar um novo final pra minha oração diária: “...E não nos deixeis cair em tentação, mas levai-nos ao Rio de Janeiro, amém”.



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Créditos da imagem: Site olhares - fotografia online
Rio de Janeiro, por Fábio S. Cupti.

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