I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

Acordei nua ao lado de uma mulher



Crônica de Beatriz Gil.

Eu não sabia que era este o sabor de uma mulher. Que era este o toque.

Também nunca tinha pensado nisso, o meu corpo no corpo de um homem fazia sentido e satisfazia-me. Sexualmente sempre julguei que um homem poderia fazer tudo o que uma mulher faz, e mais.

Esta noite aconteceu sem eu saber bem como, nem porquê. Para ser honesta nem sei bem onde começou. Gosto de pensar que foi na electricidade do beijo em frente ao espelho da casa de banho, mas tenho quase a certeza que foi antes, muito antes. Tenho quase a certeza que foi ainda mais simples, que foi o olhar.

Eu não sabia que o olhar de uma mulher me podia ler melhor que o de um homem, que era capaz de compreender, muito antes de mim, aquilo que eu quero.

Afinal de contas só agora estou a pensar nisto mais a sério, deitada ao lado de uma mulher nua que dorme no meu colo.

Não fui capaz de pregar olho. Depois do sexo fumámos cigarros, vimos filmes e comemos pão com pão. Ela já dormia aos vinte minutos do segundo filme, enroscada no meu corpo quente, preocupado. Serena.

Nesse momento, tal como agora, surpreendeu-me a calma e a naturalidade, o sorriso discreto debaixo dos olhos fechados, a mão distraidamente pousada no meu peito, como se fosse o unico sitio certo e a fazer ainda o mundo girar.

Não sei se estar acordada faz de mim o homem, não sei sequer se nestas coisas há o homem e a mulher, separados.

Quando a questionei no meio da musica que berrava aos nossos ouvidos, ela disse-me que para ela não existiam homens ou mulheres, mas sim pessoas, e isto para mim fez sentido, foi o suficiente para, por entre mais um copo de Beirão, eu acreditar que me podia efectivamente apaixonar por ela.

Agora não sei. Acho-a linda, sim, é uma mulher indiscutivelmente bonita, conheço-a de várias andanças, as mesmas sempre que as minhas e, tal como eu, comove-se com as coisas simples. Se fosse um homem o assunto estava resolvido e o sexo já teria acontecido há muito tempo.

O corpo dela moveu-se e ela gemeu. Agora, agora mesmo, em cima de mim. É dificil não lhe adorar os olhos rasgados fechados, a boca entreaberta e os cabelos no rosto.

E seu eu me apaixono por ela?

Se eu me apaixono por ela o mundo gira no mesmo sentido, os barcos não atracam para nos ver chegar, a policia não se coloca no nosso encalço para nos prender, o Sol vai continuar a ser o Sol e eu vou continuar a ser eu, mas mais completa, mais humana, mais "evoluida", porque finalmente compreendi que é a humanidade que nos diferencia, e que dentro da pele somos todos iguais e que se eu me apaixono não é só por um corpo, é pelo que ele tem dentro.

Beijei-a com a certeza de que aquilo fazia sentido e de que corria o risco de me apaixonar por ela e de um dia dar por mim com a mão distraidamente pousada no peito dela, como se fosse o sitio certo para se esquecer o toque.

*

Imagem: Olhares.pt
Una Delícia, por Seven.

Nenhum comentário