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Liberdade



Conto de Valentina Silva Ferreira.

 Meia-noite e dezanove. A lua enchia a janela e inundava o quarto de uma luz aguada e melancólica. Verónica mexeu-se por debaixo dos lençóis e abriu os olhos. Sentiu, no coração, uma pontada de um sentimento qualquer que não conseguia traduzir. Afastou as cobertas e encarou o relógio: meia-noite e vinte. Saiu da cama e ligou o pequeno rádio da mesa-de-cabeceira. Grândola, Vila Morena encheu o quarto de afecções mornas, de sagradas profecias; era como se bons ventos soprassem as cortinas e inundassem o ar de cheiros primaveris. Verónica sentiu uma felicidade inusitada e sorriu, ao mesmo tempo que uma lágrima gorda deslizou pela bochecha corada. Que estranha sensação aquela: um misto de alegria e tristeza; uma saudade pequena, uma despedida ansiada, uma esperança para o futuro. Aumentou o volume e balançou o corpo pelo quarto, descalça sobre o linóleo, sorvendo a magia daquela música. Pegou na almofada - a que não era a sua - e encostou-a ao peito, enquanto afundava o rosto na maciez do tecido branco. Sentiu-lhe o cheiro forte, um misto de madeira e eucalipto, um cheiro que lhe despertava desejos profundos. Recordou os olhos escuros e o orgulho que neles se colava, como o bafo de uma boca quente numa janela fria. Vislumbrou o homem, fardado e bem constituído, a colocar a boina na cabeça e a jogar-lhe um beijo apaixonado. Meu Deus, faça com que tudo corra bem. Suspirou e deitou-se. A música acabou. O relógio avançara no tempo. Lá fora, por baixo da lua, nas ruas, fora do sossego daquele quarto, reinava a incógnita. Verónica agarrou no terço e apertou-o até os dedos ganharem um tom esquisito. Meu Deus, ajude-nos. Fechou os olhos e caiu num sono profundo.

De manha, o sol que entrava, embora fosse um sol de Abril, queimava-lhe as pestanas. Verónica despertou, sentindo os nervos apertarem as suas vísceras. Engoliu o ar pesado e esperou. Um cheiro a madeira e eucalipto encontrou, nas suas narinas, o lugar certo para se acomodar. Uma chave foi metida na porta. Ele entrou, com um ar abatido mas visivelmente satisfeito. Somos livres, meu amor, disse o homem. A operação correu como planeado. Somos livres. E, com essas palavras, empurrou o seu corpo cansado até à cama e beijou a mulher. Verónica correspondeu, envolvendo o pescoço do seu homem com os braços. Depois, perdida nos torvelinhos de prazer daquele beijo, repetiu mentalmente: liberdade. Um cravo, que se escondia no bolso do casaco militar, escorregou pelo decote de Verónica e ela deixou-se levar pelo doce sabor da vitória.


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Crédito da Imagem: Olhares.pt
Última noite ao luar..., por BrunoFFP

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