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Somos felizes, não somos?



Crônica de Beatriz Gil

Camila, somos felizes. Acredito de forma piedosa que somos felizes. Digo felizes a maior parte do tempo, claro, que os nossos olhos também se entristecem e de quando em quando caem-nos grossas gotas de água dos olhos fora, nos encharcam as bochechas e nos deixam uns minutos com pingo no nariz.

Mas, regra geral, olhando para a imagem grande, julgo sermos felizes.

Mas não julgo só e apenas que sejamos felizes como se estivesse a dizer que um gato é feliz por se empoleirar no telhado, digo, afirmo e creio que somos felizes um com o outro. Que eu para ti, e tu para mim, somos peças essenciais à nossa mutua sobrevivência. Separados morreríamos de fome, com alguma doença, com o coração rachado ou coisas menores, como por nos cortarmos num dedo a fazer o jantar.

Sim, de certeza que, se estivermos separados, um simples golpe num dedo nos mata.

Camila, eu amo-te. Quero dizer, eu não sei bem se te amo, se te venero, se te desejo ou se sou só louco e viciado em ti. Na tua pessoa, naquilo que tens vestido por baixo da pele, naquilo que é o teu sorriso, que não é só o teu sorriso, que é o conjunto de uma série de movimentos perfeitamente sincronizados com a tua voz, as tuas emoções, as imagens que tens dentro e atrás dos olhos.

Os teus olhos, Camila, os teus olhos!

Eu não sei se posso falar dos teus olhos como se fosses humana. Para falar dos teus olhos teria que fazer uma qualquer referência a um ser étereo que não existe, que não é fada, que não é anjo, que não é sereia, que é qualquer coisa de tão transcendentalmente belo que não poderia ser por mim descrito, comum humano de olhos castanhos barba por fazer e pernas de jogador da bola.

Somos felizes, somos felizes, somos felizes.

Repito, insisto, até já o gritei. Tu não apareceste, não me respondeste, não me sorriste, nem para mim olhaste.

Não sei o que foste fazer para te demorares tanto tempo. Não levaste nem a tua carteira com os teus documentos, nem os sapatos vermelhos (que usas sempre que vais passear), nem a mim.

Camila, não me levaste contigo. Nem a mim me levaste, e tu já sabes que somos tão felizes que, se estivermos separados, um corte no dedo nos pode matar.

Já não como há três dias, não me mexo deste sofá, não ouso sequer ir à casa de banho. Eu sei lá se não tropeço na alcatifa e me esparramacho no chão e me esfolo no cotovelo e depois? E depois se eu fico práli deitado a esvair-me em sangue e tu sempre sem apareceres. Eu morro Camila, juro que morro, sabes bem que morro.

Somos felizes. Não somos?

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Crédito da imagem: Olhares.pt

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