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Pausa dramática


Conto de Marcelo Sousa.

Silêncio. O ventilador de teto toma contornos de tufão. Lá na cozinha um pingo de torneira é a bomba atômica arrazando o Japão. A casa respira, madeiras estalam, a máquina de lavar roupas na casa do vizinho parece um urso enfurecido e acorrentado, a água preguiçosa passando nos canos por trás das paredes do apartamento me dá ânsias. Tenho ódio. No silêncio tudo grita! Tudo começa a existir! Estou aqui a dedilhar as teclas, mas nada sai. Amasso cada folha e jogo-as no cesto ao lado. Pausa dramática. Penso poemas lindos. Preparo outra folha, tomo um gole de vinho, e mais uma pausa... Os dedos tremem sobre a máquina estática. Não escrevo. Sou escravo de uma terrível falta de inspiração. Vou às gavetas, republico poemas antigos. Acho recortes, pequenas intimidades envelhecidas, vou publicá-las agora sem prejuízo à minha consciência, quase perdida. Merda! Não me atrevo. Não escrevo. Os que esperam de mim coisa nova, que se retirem. Os que bradam, que continuem bradando! Ah, uma ova! Não os vejo cobrando de poetas já mortos qualquer coisa nova. E no entanto os clássicos por aí estão: chiclete cujo açúcar nunca acaba. (...) Pausa enfática, nada prática. O momento sim, este é dramático. Hiato criativo. Hiato, de fato. Variações sobre o mesmo tema, as mesmas notas, as mesmas tintas. Mas sobre o que o poeta pinta? (...) Merda de reticência! Estou perdendo a paciência com este drama todo. Vou publicar novamente alguns versos que gosto. Chamaram-os de obra magnífica, a tal obra-prima. Então que eles me socorram agora que não consigo usar a rima. E não me apontem o dedo por repetir a dança. Estou dando chicletes para as crianças. Ah, vá! Cada um que sorria como puder. Que cada um cuide dos próprios dentes. Estou claudicante. Reticente. Hesito. Existo? De repente olho a página, coloco os óculos. De letrinhas ela está repleta. Página mesquinha, estaria tentando ludibriar o poeta? Olhei a página de novo. Olhei este caldeirão, mas desta sopa eu não provo. Não provo! Mas o que queriam, está aqui. Proforma. Verso branco? Não! Prosa cinzenta, nada de cor-de-rosa. Novo formato. Intacto como a questão entre a galinha e o ovo. Eis que do desespero nasceu um poema novo!

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