I Concurso Literário Benfazeja
em torno do que amamos: livros e literatura

A Maldição do Visitante



Conto do escritor convidado Henry Alfred Bugalho.


O cavaleiro fitou o castelo no alto da colina; estava exausto, há dias sem pouso nem comida.

A sentinela gritou, ordenando que o cavaleiro se identificasse.

— Um peregrino, rumo à Terra Santa — o portão se lhe abriu.

O Duque, senhor daquela herdade, recebeu-o. Bom anfitrião, deu-lhe farta ceia e alojamento. O cavaleiro recuperou suas forças.

Nesta época, chegaram aos ouvidos do Duque relatos de estranhos acontecimentos na cidadela — concubinas assassinando amantes; idosos morrendo de tosse sanguinolenta; crianças levadas por tumores fatais; bebês que dormiram pacíficos mas que não despertaram mais; meninas se jogando de torres; coroinhas, de campanários; assassínios; enfermidades; morte.

Quando seu primogênito sucumbiu a uma praga desconhecida, o Duque constatou que deveria tomar uma resolução e descobrir qual a causa destas misteriosas tragédias. Convocou escolásticos, astrólogos, cirurgiões, chefes-da-guarda, alquimistas, todos que pudessem oferecem algum vislumbre sobre a maldição pairando sobre eles.

— São os sinais do Apocalipse, Senhor Duque.

— Saturno na Sexta Casa de Escorpião, Senhor Duque.

— Enfermidades trazidas por cruzados retornando do Oriente, Senhor Duque.

— Baderneiros recém-libertados da prisão, Senhor Duque.

— Humores malignos, Senhor Duque.

— O cavaleiro que vós hospedais, Senhor Duque.

— Quem é este? — o Duque indagou seu assessor.

— Um necromante, meu Senhor, um louco.

Mas a resposta do necromante intrigou o suserano.

— Como descobristes isto?

— Ele mesmo mo disse, Senhor Duque.

O soberano refletiu sobre o que deveria fazer. Chamou o cavaleiro até sua câmara:

— Reuni vossos pertences e deixai minhas terras. Desde que chegastes, desgraças pousaram sobre nós. Não sois mais bem-vindo.

— Só vou aonde me enviam, meu Senhor. Mas tendes razão, nada mais tenho para fazer aqui.

A Morte colocou o elmo e vestiu a capa, montou no cavalo e o esporeou. Mais vidas para ceifar a uma noite de viagem.

Desde então, a Morte não entrou mais naquele ducado, tornando-se uma diferente maldição: o Duque, hoje com quase mil anos, já tentou suicídio trezes vezes, desesperado por se livrar da vida.

Biografia
Curitibano, formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino” (Editora Com-Arte/USP), "O Covil dos Inocentes", "O Rei dos Judeus", da novela "O Homem Pós-Histórico", e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos, e do "Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!". Após uma temporada de um ano e meio em Buenos Aires, está baseado, atualmente, na Itália, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. Suas obras foram publicadas em revistas e sites brasileiros e internacionais, como The Blue Lake Review e The Fine Line (EUA), Revista Desenredos, Revista Podler e Portal Cronópios.
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* Créditos da imagem: Olhares.pt
... ceia ..., por Pedro Brazão Pires

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