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O amor de Recife



Conto de rogério fernandes!

Rita balançava a cabeça distraída. Recife batia sem ritmo, com a ponta dos dedos, o tampo da mesa de madeira. Não se falavam, mas o odor de ressentimento preenchia ambos, de maneira que o melhor é tentar entender o caminho que percorreram até aqui, sem muitos preâmbulos.

Rita tinha 25, Recife 30. Rita era prática, sabia idiomas e tinha cara de menina, sem Foram felizes por dois anos, tempo de amor e silêncios, porque o silêncio também é um jeito de amar, outro lado da conversa apaixonada, tempo de mistérios e entrega. ter o toque das tolices que certo temperamento de menina possui. Recife a conheceu em uma festa de São Jorge, ela, com uma amiga, pediu ao rapaz negro e magro que compartilhasse um copo de cerveja. O rapaz pediu outra garrafa e encheu até a borda os três copos. Cerveja e beijo não se nega a ninguém, teria dito. Rita sorriu, deslizando um pouco o sorriso para ele, ruborizando sem medo o deslizar da mão ao encontro da mão do rapaz. A amiga, envolvida com um percussionista da festa, deixou os dois ao sabor do diálogo, era madrugada, a madrugada virou sono e o sono foi desculpa para a cama. Foram morar juntos dois meses depois.

O amor foi repentino, a mãe da menina, uma viúva italiana, não julgou, gabava-se de compreender os instintos modernos, sem saber que o amor é instinto de todos os tempos, consolou-se em visitar o casal de quando em vez, levando pequenas porções de carne, algumas peças de enxoval e tantas outras comodidades domésticas. Rita, acostumada e incomodada com o zelo da mãe, fingia devoção, exercitava o protocolo familiar. Recife, ausente de tantas demandas, tecia seus tapetes, vendia o que podia e juntava algum para os dias difíceis.

Era sozinho, ou pelo menos não se soube, até aquela tarde de constrangimentos, se havia algum porto seguro onde ele repousou até encontrar Rita, ela perguntava do seu nome. É Recife como a capital de Pernambuco? Não, o meu Recife vem do acidente geográfico que se forma na borda do oceano. Não sei dos seus, não precisa, bobagem. Mas de onde...não importa. E fumava um cigarro enquanto tricotava as cores quentes num retângulo de algodão. Foram felizes por dois anos, tempo de amor e silêncios, porque o silêncio também é um jeito de amar, outro lado da conversa apaixonada, tempo de mistérios e entrega. Rita jurava que amava para sempre, ele que envelheceriam juntos, a mãe de Rita se contentava com um amor que durasse o tempo de não se machucarem muito.

Foi em 1997, vinte dias antes da tarde que vimos no começo dessa história, que Rita chegou assustada, já não podia com aquilo e precisava desabafar. Encontrou Recife na cozinha, limpando alguns morangos da véspera. O rapaz abraçou a moça como todos os dias, todas as horas, em que estiveram juntos. Olha, não quero lhe preocupar, alarmar e tal, mas preciso, diga, o que foi? Sinto algo estranho, e faz tanto tempo que não chega, tenho medo, quanto tempo? algumas semanas, e será...porque não falou? Pensei que chegaria, mas não chegou, é, não chegou, fazemos o teste, pensei em fazer, você compra, compro, chega logo, chego, não se preocupe, preocupo.

Fizeram o teste naquela quarta feira. Ela tremeu o cabo com urina e esperou. Os minutos se revoltaram e fizeram-se muitos, muitos e intensos. Recife não sabia sentir aquilo, o rubor do amor primeiro se misturou com ânsia em acompanhar a agonia de Rita, não queria, queria, não posso, poderia, se quisesse. Recife esperou e tudo escoou para um suspense até Rita sorrir ou não, se for, e ela sorrir, felicidade, se não for, e acontecer de ela sorrir, abraço e choro? E se for, e ela chorar, arrepender de nós, daquele intruso em seu corpo, mas podia não ser intruso, estava na hora de se ver em outro, e podia ser uma renovação do querer dos dois, um querer que morria.

Rita não sorriu. Eu não quero, mas..., não quero, podíamos querer, não, ela chorou, o querer era mais fraco do que vê-la assim, Rita sozinha, sem ser feliz como sempre quis e foi, com essa fortaleza interrompida, não quero, não quero. Ele também não quis, antes por não perder o sorriso de Rita do que por não estar pronto. O corpo não era dela? Ela decidia. A ele, apenas apertar a sua mão e sorrir, está tudo bem, eu cuido de você, eu te amo, eu caminho o seu caminho, eu trilho a sua estrada, assim, piegas. Não seria fraco? Não poderia impor-se? Rita triste, Rita cabisbaixa, não queria navegar essas águas.

Foram em busca de tudo: Remédio, mas não vai lhe fazer mal? Não sei, não tem outro jeito, e quanto? Muito. E se não funcionar, bobagem, tanta gente usa, e se ficássemos, já falamos, não, não, e...e...e...Recife não foi trabalhar, não vendeu seus tapetes, Rita deixou a faculdade de lado, a amiga ligou, resmungou a ausência, estou com um problema, vem pra cá, já vou, o que foi, estamos juntas, fica calma. Ela fez um discurso sobre o direito ao corpo. Rita assentiu, Recife desesperou, pois os discursos não nos preparam para o que poderia ser e não vai, nunca, ser. Saiu, caminhou, deixando as duas. Percorreu a rua Harmonia e chegou até a Aspicuelta, virou a esquerda na Wisard e bebeu uma cerveja, sozinho, como sempre detestou. Compraram no dia seguinte, usaram, ficaram abraçados naquela noite, com toalhas e banhos prontos, no silêncio da madrugada, no suspenso da televisão ligada, nada, ela calou, nada, ele calou, nada, e se passou já uma semana.

Um médico, amigo de Recife, colocou-se no caminho. Ajudo, aconselho, faça isso, esteja pronto, estarei, amanhã, na tarde, e depois? Repouso, calma, cuida dela, cuido, sempre, sempre. Rita já não falava, apenas esperava, não comia, esperava, de olho na novela, no jornal nacional, esperava um aviso de tudo bem, acabou, passou, agora é viver. E esse aviso não chegava, arrumou seu corpo na cama, ao lado dele, juntou as coxas com as coxas dele, e calou, ele abraçava, lia para ela, fazia chás, comprava revistas. Seria no dia seguinte.

Ela, depois de tanto tempo, suspirou confiante. Incomodava a fragilidade insuspeita de Recife,agora, quando mais precisava, ele mostrava aflição e tranquilidade, sabia o que ele queria, e aquilo a comovia, mas não podia, seu corpo, sua vida, seus modos, mas, aquele sujeito grande, fingindo segurança, de modos tão decididos e mentirosos, só podia comove-la. O amor sabe de suas barreiras, só que elas não se dão nomes, e não demonstram piedade. Ela o amou por isso, pela noite afora, sem dormir, pelo Ela calou, não quis, colocou-se impaciente, fez de muda. Ele chorou e a respeitou, chorou sozinho, quando ela não estava. Ficaram mudos, sabendo-se. desajeitado da leitura soletrada, para ela descansar, pelos abraços envolventes na cama, no corredor, no infinito. Sabia que não seria sempre assim, se cansava mais facilmente daquilo, mas ela o amou por aqueles momentos. Ela se trocou, pálida, pôs um vestidinho verde de flores, com os olhos castanhos entretidos nos olhos pretos de Recife. Foram, fizeram, ele, na espera, na frente da cama metálica, imaginando o infinito da dor, querendo não saber, e, quando soubesse, precisava falar disso com ela, precisava saber, o verbo dela, o que ela pensava, queria alguém para compartilhar a agonia, alguém para dizer o que foi aquilo, o que não foi, precisava chorar, e não era um chorar qualquer, queria chorar no colo dela, com ela chorando também, explicando o desconcerto das coisas, que já havia passado, que o mundo estava em seu eixo, mas era tudo tão naturalizado, não podia ser, mas parecia tanto. Ela chegou tonta, acompanhada, debruçando, com os pés descalços e descabelada. Dormiu, ele velou o seu sono, trocando automaticamente de canal, a televisão dizia que o mundo ainda estava lá, para quando eles estivessem prontos. Ela, vezenquando, bocejava algo no sonho, o braço espetado, o corpo quieto, posto abaixo.

Chegaram em casa. Ela dormiu, viu a novela, trocaram afetos. Quis saber, uma tarde, passados dias, o que fora, o que sentiu? Não lhe deixou triste? Ela calou, não quis, colocou-se impaciente, fez de muda. Ele chorou e a respeitou, chorou sozinho, quando ela não estava. Ficaram mudos, sabendo-se. Ela distraída, ele batendo o dedo na tábua de madeira. Amava Rita, mas via que aquilo os afastou, ele não a sabia mais, e era assim que ele via a si mesmo saltando do colo de Rita, pedaço de possibilidade embebido em anestesia e sangue, fiapo de poema, resto de coisa alguma.

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Crédito da imagem: Olhares.pt
tempos sozinhos, por Carmen Silva

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